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10/08/2017   10/08/2017 23h07 | A+ A- | 147 visualizações

Universidade, assédio e adoecimento: qual a relação?

70ª edição do ‘Cultura na Sedufsm’ trouxe o tema ‘Assédio, resistir é preciso’


'Cultura' ocorreu na noite da quarta-feira, 9, na Sedufsm

A universidade do século XXI já não é composta somente de ‘meninos brancos e bem-nascidos’. Pelo contrário, pesquisas indicam que hoje o maior número de matrículas nas universidades, tanto públicas quanto privadas, é de mulheres. Contudo, se observadas as taxas de pessoas que concluem os cursos, essas mulheres já não são maioria.

Que fenômeno é esse que, se por um lado possibilita o acesso das mulheres aos espaços de conhecimento, por outro as expurga antes que consigam finalizar seus estudos? A inquietação é de Rejane Jardim, professora de História do Instituto de Ciências Humanas da UFPel. Ela esteve presente na 70ª edição do projeto ‘Cultura na Sedufsm’, ocorrida na noite da última quarta-feira, 9, no auditório Suze Scalcon.

Rejane foi convidada a integrar a mesa de debate intitulada ‘Assédio, resistir é preciso’. Junto a ela, estiveram a professora do departamento de Direito da UFSM, Andrea Cezne; o professor da Escola Superior de Educação Física da UFPel e diretor do ANDES-SN, Giovanni Frizzo; e Saritha Vatthatara, coordenadora-geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE) UFSM.

Permanência, um desafio

Aquilo que conhecemos hoje por universidade começou a ser pensada, no século XII, por ‘mestres’ homens, e assim se manteve até meados do século XX, quando, a partir da 2ª Guerra Mundial, as mulheres foram jogadas no mundo do trabalho, já que os homens tinham como tarefa engrossar os fronts de batalha. Findado o conflito, elas se mantiveram nas atividades laborais remuneradas, e, assim, passaram a imprimir novo ritmo às relações de trabalho, já que, além de demandarem proteções trabalhistas frente ao patrão, também exigiam legislações específicas, como creches, adicional de insalubridade e outras condições que lhes possibilitassem executar as tarefas em pé de igualdade com os homens.

E elas alcançaram, também, posições dentro da universidade, que, especialmente nos últimos anos, tem conhecido um crescimento na oferta de vagas, possibilitando que setores historicamente marginalizados pudessem ocupar assentos nas salas de aula. É o caso não somente das mulheres, mas dos(as) negros(as), indígenas e LGBT’s. “A universidade se ampliou, porém não se preparou com políticas de permanência para esses novos ingressantes”, diz Regina.

Mesmo quando ocupam posições de técnico-administrativas em educação (TAEs) ou de docentes, elas também enfrentam adversidades. A docente da UFPel, que estuda História das Mulheres e de Gênero, avalia que até mesmo a forma com que a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) organiza as citações em trabalhos científicos tem por resultado a invisibilização das mulheres, pois determina a utilização do último nome, comumente o do pai. “Isso nos leva a desconhecer nossas autoras”, opina, lembrando que as mulheres sempre foram ativas em suas produções científicas e intelectuais, porém raramente recebem as titulações e honras reservadas ao gênero masculino. Dessa forma, seus trabalhos tendem a ser apagados.

Regina, que também é diretora da ADUFPel, acredita ser necessária a criação de instrumentos que deem conta das múltiplas denúncias de assédio que ocorrem no interior da universidade, concebida por ela como um espaço de reprodução das relações de dominação observadas na sociedade. Para tornar ainda mais concreta a importância do envolvimento das instituições na luta contra o assédio, a historiadora comenta sobre um caso de estupro coletivo ocorrido em sua universidade. Ela conta que, durante uma festa estudantil de determinado curso, uma estudante foi alcoolizada e sofreu o abuso. A universidade, contudo, não se responsabilizou, alegando que o estupro ocorreu fora de seus muros. O resultado da postura considerada omissa foi a interrupção dos estudos e o retorno da estudante à sua cidade natal.

Regina ressalta, ainda, que na universidade coabitam outras formas de violência de gênero, menos explícitas, porém cotidianas, como a divisão diferenciada de tarefas entre alunas e alunos, os últimos considerados mais aptos, por exemplo, para atividades de campo, ao passo que elas mantêm-se destinadas aos espaços laboratoriais.

“Façamos da universidade um lugar de combate, desde a base até o topo. Assédio é violência no local de trabalho, que deveria ser um espaço de produção do conhecimento. Esse é um compromisso do Estado, das universidades, dos sindicatos para com as mulheres”, propõe a docente da UFPel. Para ela, o combate inicia já na piada aparentemente ingênua, mas que desqualifica minorias sociais, e se estende até o crime mais hediondo.

Rejane é sindicalista, mas reconhece as várias limitações que a militância reserva às mulheres. “O sindicato é filho da era capitalista. Nasceu para combater o sistema, mas ainda é um lugar masculino. Precisamos de um novo e arejado sindicalismo”, conclui a docente, que diz não conseguir imaginar uma revolução na qual as pautas de gênero sejam marginalizadas. “A revolução será feminista ou não será”.

O estopim

Por falar em revolução, foram trabalhadoras grevistas de Petrogrado (Rússia) as responsáveis pelo estopim da maior experiência política que a classe trabalhadora já experimentou, a Revolução Russa de 1917. Quem lembra é Giovanni Frizzo, que, na mesa de debate do ‘Cultura na Sedufsm’, trouxe exemplos de avanços trazidos pelo regime soviético aos direitos das mulheres, a exemplo da legalização do divórcio e do aborto, e da construção de creches, refeitórios e orfanatos para que homens e mulheres tivessem as mesmas condições de trabalho. Outro feito propiciado pela Revolução foi a inserção das mulheres em todos os tipos de trabalho, inclusive nas Forças Armadas.

“E eu estou falando de 100 anos atrás. Ainda hoje, temos mulheres com quádrupla jornada de trabalho”, diz Frizzo. O exercício de interligar a experiência soviética com as questões de gênero intencionou demonstrar a relação intrínseca entre a opressão de gênero e a opressão de classe. Para o docente, também diretor do ANDES-SN, o enfrentamento ao assédio e à opressão de gênero é, necessariamente, o enfrentamento ao sistema capitalista. Pois, embora o atual sistema não tenha criado o patriarcado (forma societária centralizada no homem), certamente o aprofundou, com o objetivo de não somente explorar, mas superexplorar a mão-de-obra dos trabalhadores. É o caso, por exemplo, da superexploração das mulheres negras, pobres e lésbicas.

Frizzo, que acredita estarmos vivendo um “retrocesso civilizatório”, elenca três origens da violência sofrida pelas mulheres: a doméstica, responsável pela maioria das denúncias e promovida por companheiros, ex-companheiros ou outras pessoas próximas; a de Estado, a partir de políticas públicas que buscam vetar o debate de gênero nas escolas, ‘curar’ os homoafetivos ou, ainda, praticamente ‘legalizar’ o crime de estupro; e, por último, a violência de classe, que perpassa todas as formas de violência citadas anteriormente, porém se expressa de forma mais intensa nos locais de trabalho, através da desigualdade salarial entre homens e mulheres e das relações de assédio sexual.

“O socialismo traz uma nova sociabilidade, na qual homens e mulheres estabelecem outras formas de relação, baseadas em direitos iguais e não na concepção de propriedade. Mais que uma questão econômica, o socialismo produzirá o novo homem e a nova mulher”, projeta Frizzo. Enquanto a ruptura sistêmica não se efetiva, algumas ações defendidas pelo dirigente do ANDES-SN é a criação de condições para que homens e mulheres consigam militar com equidade. Nesse ponto, Frizzo cita os espaços de recreação infantil oferecidos pela Sedufsm e pelo ANDES-SN, que possibilitam aos(às) docentes participarem das atividades sindicais. Ele também lembrou a Campanha Contra o Assédio, lançada no 62º Conselho do ANDES-SN (Conad), ocorrido em julho deste ano.

“As mulheres trabalhadoras sempre estiveram à frente dos enfrentamentos de classe e de gênero, mesmo que a história tente apaga-las”, conclui Frizzo.

Para entender o assédio

A professora do departamento de Direito, Andrea Cezne, participou da mesa de debate da última quarta-feira, 9, e trouxe aspectos mais conceituais acerca das diversas formas de assédio, prática bastante presente, segundo ela, no serviço público. Assédio configura-se como conduta abusiva através de comportamentos, gestos, palavras e outras atitudes que possam causar danos físicos e/ou psíquicos ao indivíduo. Embora existam casos tão graves que são enquadrados como assédio mesmo executados uma única vez, a característica mais observada é a repetição, ou seja, ações que se somatizam no tempo e acabam por desestruturar a vítima.

Além da repetição, outros elementos definidores do assédio são a intencionalidade, a direcionalidade e a temporalidade. Andrea também desmitifica a ideia de que o assédio só pode ser exercido sobre um superior contra um subordinado. Segundo ela, o assédio pode vir na forma vertical descendente (superior – subordinado), vertical ascendente (subordinado – superior) ou horizontal (entre colegas de trabalho, por exemplo). Já quanto ao caráter do assédio, esse pode ser individual, coletivo ou, mais grave ainda, institucional – quando tal prática já faz parte da cultura da organização. “Alguns locais de trabalho são tão tóxicos que os trabalhadores nem percebem”, diz a docente.

O perfil de um assediador

Autoritarismo, manipulação, demonstração de poder e abuso de autoridade são características geralmente observadas em uma pessoa assediadora. No que tange às vítimas de assédio, Andrea diz que, infelizmente, tendem a ser sujeitos esforçados e qualificados, cujo destaque torna-os vítimas preferenciais. Questões de gênero, étnicas e de orientação sexual ou religiosa também costumam ser fatores preferenciais na ‘escolha’ das vítimas, aponta a professora.

As ações realizadas pelos assediadores vão desde piadas e exposição ao ridículo, até isolar a vítima dos demais colegas, desqualificá-la, determinar a ela tarefas muito acima de suas responsabilidades, impedí-la de expressar-se, despromovê-la ou retirar suas funções gratificadas sem justificativas e criticar sua vida privada. O objetivo, explica Andrea, é isolar a vítima e enfraquecê-la para que, sem o apoio dos colegas, não consiga enfrentar sua situação de assédio.

Assédio e adoecimento

Quem já sofreu sabe. O assédio pode levar um(a) trabalhador(a) ao adoecimento. Conforme Andrea, as consequências reverberam tanto na saúde física quanto mental da vítima, desdobrando-se em sintomas como angústia, mal-estar, distúrbios do sono, isolamento social, tristeza, mudança de personalidade, tremores, palpitações, uso de álcool e drogas, alterações de peso, sentimento de culpa e a própria Depressão – doença que traz consigo muitos desses sintomas.

“O assédio retira da pessoa o prazer de trabalhar, afeta sua vida pessoal e, em casos extremos, pode levar ao suicídio”, afirma a docente do departamento de Direito, lembrando que o medo é o principal motivo pelo qual muitos casos de assédio não são denunciados.

“Imagine quantos(as) professores(as) sofreram assédio por anos e não denunciam. Por isso, suporte e apoio jurídico são importantes”, pondera. Além disso, ela também destaca que a prática de assédio – moral ou sexual – não afeta apenas a vítima, mas todo seu entorno. Os locais de trabalho onde essa prática é corriqueira, por exemplo, comumente experimentam um elevado número de ações judiciais e uma alta rotatividade, já que os(as) trabalhadores(as) não querem ali permanecer.

Como conclusão, além de alertar para o fato de que a prática do assédio pode ser configurada como ato de improbidade administrativa, ela salienta que tudo depende do contexto e da intencionalidade. Ou seja, há de se ter cuidado em diferenciar atos de gestão de práticas de assédio moral.

Uma visão estudantil

Saritha Vatthatara, estudante de Agronomia e coordenadora-geral do DCE-UFSM, trouxe para a mesa um pouco das angústias enfrentadas por estudantes mulheres na universidade. Em sua avaliação, as situações de violência já se iniciam no chamado “trote”, em que os veteranos expõem, muitas vezes, os recém-ingressos a constrangimentos e humilhações. Ela diz que em seu curso a predominância é de estudantes e professores homens, o que agudiza tal situação.

A estudante também destaca que as relações de assédio de professores para com estudantes geralmente têm a duração de um semestre – período das disciplinas – e que, por isso, e também por medo de serem futuramente reprovadas em outras disciplinas ministradas pelo mesmo professor, as vítimas tendem a não denunciar.

Outro ponto tocado por Saritha foi o assédio sofrido pelas estudantes que se assumem feministas e se organizam em coletivos estudantis. Desde reprovação, até tirar bolsas de pesquisa e debochar publicamente, são condutas já adotadas por professores que não concordam com a ideologia das estudantes.

“Quando as mulheres se contrapõem ao assédio, são vistas como autoritárias e instáveis. O assédio é tido como ‘normal’ dentro da instituição. Temos de ter respostas para os casos de denúncia. Se não tivermos respostas efetivas, as meninas não vão denunciar”, diz a estudante, defendendo a organização coletiva e a pressão para que sejam instituídas ações de combate efetivo ao assédio sexual.

“Ser mulher, ser da classe trabalhadora, ser cotista dentro da universidade por si só já é um ato de resistência”, conclui Saritha.

Comissão Permanente de Combate ao Assédio

Tendo em vista que o assédio, em suas mais diversas formas, é um problema grave nas universidades federais, o professor do departamento de História, Júlio Quevedo, presidente da Sedufsm, propôs a criação de uma comissão permanente, que reúna sindicatos, DCE e demais movimentos sociais, com a finalidade de fiscalizar e combater os atos de assédio na UFSM.

Ele também lembrou que a problematização de temas como esse são tarefa do projeto ‘Cultura na Sedufsm’, em cujas edições anteriores já se tratou, dentre diversos outros assuntos, do combate ao racismo e ao machismo.


 

Texto: Bruna Homrich

Fotos: Bruna Homrich, Ivan Lautert e Fritz Rivail



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