Reflexões docentes

Sobre Lembrança, Esquecimento e Impunidade

Carlos Armani
Professor do departamento de História da UFSM, filiado à Sedufsm

A história de uma cidade é feita não somente por acontecimentos e processos, como também pela maneira como seus habitantes desenvolvem sua relação com o passado dessa cidade e que define, muitas vezes, o que chamamos de sua memória viva e sua identidade. A história de uma cidade também é feita por traumas, a ferida na memória que, às vezes, emudece e cala – deliberadamente ou não – os indivíduos que nela vivem.

A cidade de Santa Maria está prestes a rememorar o acontecimento mais trágico de sua história neste mês de janeiro. Como lidar com esse passado recente que não passa, que nos interpela como cidadãos e como sujeitos cujo habitar o mundo depende de uma decisão, que pode ser a de lembrar, ou de esquecer? Lidar com esse passado recente também é um modo de fazer história. Nossa relação com um acontecimento trágico e traumático pode se estabelecer de diversos modos, entre os quais, pela indiferença como esquecimento involuntário ou intencional. Direcionar nosso olhar para o passado e escolher um repertório de lembranças que organizam nossas vidas na cidade e na região que habitamos é uma forma de criar uma identidade e um sentimento de pertencimento.

O modo como nós produzimos a indiferença moral ao fazermos tábula rasa do passado também é parte da história da cidade. Como decidimos nossa condição de agentes nessa história depende de como encaramos o passado, mesmo que ao arrostá-lo, as identidades que gostaríamos de manter percam sua força diante do evento traumático. Não seria esse o sentido da expressão “o coração do Rio Grande está partido”? Se dependermos de uma história oficial da cidade tão ao gosto de seus gestores públicos, a história será sempre uma oferta de conciliação e de consenso às custas do esquecimento forçado, especialmente se os seus beneficiários forem os agentes do poder público.

Há eventos que não podem ser esquecidos, por conta de que acreditamos que uma memória no porvir possa ser mais justa com aqueles que, intencionalmente ou não, são mobilizados por uma política que pretende fazer o jogo da obliteração da presença e converter o acontecimento trágico provocado por agentes humanos em mera fatalidade, uma maneira de fazer o esquecimento e a impunidade andarem de mãos dadas.

* Publicado no Diário de Santa Maria do dia 13 de janeiro de 2016.

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