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Reflexões docentes

Belchior, um anjo rebelde

28/10/2020

Luiz Carlos N. da Rosa
Professor do departamento de Metodologia do Ensino, Centro de Educação - UFSM

Belchior entrou na cena musical rasgando espaço e rompendo amarras que não seria para alguém estar "sem dinheiro no banco". Belchior, no meu entender, é um gigantesco cometa que rompe a atmosfera estética alinhavada para o bem comportado e reprodutor de um modus vivendi de quem aceita o paradigma autoritário e obscurantista. O bom moço, que apenas diz sim para o sistema e a ideologia que divide os seres humanos em oprimidos e opressores.

Como não entendia bem "essas coisas de família e de dinheiro", sai de cena e sem se importar com o glamour da fama e do sucesso. Assim como entrou na esfera social da grana e da fama, ele saiu sem nada disso se importar. Não custa lembrar que escreveu suas divinas letras em tempos obscuros e nefastos de nossa História. Tive o prazer e o privilégio de ter assisto um show do Belchior, em Santa Maria, no saudoso cinema Glória no início da década de 80 do século XX. Era uma estrela e consciente de sua função social no contexto da Arte e, neste, os seus saberes e fazeres da linguagem musical. Nos abrilhantou com um show onde os arranjos nos sublimaram para os ditames do Rock.

Se nos dedicarmos à análise das letras, posso afirmar que Belchior foi um dos melhores poetas da música popular brasileira. Sua Poesia era de rimas sofisticadas e riquíssimas. Como todo gênio da Poesia, se preocupou, nas suas letras, com metáforas e metonímias acuradíssimas. Como um grande e genial Poeta, os seus poemas nunca caíram na vala comum de um ato criativo circunscrito a um processo catártico. Com toda certeza, o nosso gênio Belchior, produziu sua música com muita inspiração e transpiração. O aparelho cognitivo, de Belchior, trabalhou de forma profunda o seu poema, sendo magistral na transformação do ordinário e nos agraciando com o extraordinário de sua poética.

No meu entender, não é possível entender Belchior ao refletir somente nossa visão de um cantor ou de um compositor. Para decodificar o nosso gênio da MPB, faz-se necessário adentrar na singularidade de seu ato criativo, no contexto de sua construção poética. Vou lhes permitir uma licença poética e usar a reflexão do grande Poeta e crítico Otacvio Paz e seu livro ‘O Arco e a Lira’, quando afirma: "cada poeta é um pulsar no rio da linguagem. (...) o poema é uma máscara que oculta o vazio, bela prova da supérflua grandeza de toda obra humana. (...) o poema não diz o que é, mas o que poderia ser...".

Belchior é isso, um reinventor do mundo. Belchior foi um heraclitiano. Pensava na mudança, transformação intermitente do ser e da condição humana. A mutação foi, de forma inconfundível, a marca de sua luta permanente com nossa condição existencial e as possibilidades de um vir-a-ser para o humano na sua paradoxal prática social. O pensador Belchior nunca sentiu medo, pruridos ou vergonha de pensar e escrever sobre as coisas do mundo, de Eros, da vida e do amor.

Para o nosso grande poeta, Belchior, o amor não se instituía de forma metafísica. O amor e os seus paradoxos definem o que sou, de onde vim e para onde vou. O amor é vida e a vida só tem sentido no substrato delicado e delicioso do amor. Ele andou com "os pés cansados e feridos de andar légua tirana, de lágrimas nos olhos de ler o Pessoa e de ver o verde da cana(...). mesmo assim não me esqueci de amar".

Belchior disse, de forma metafórica, que no Corcovado quem abria os braços era ele. Para o nosso gênio, em "Copacabana, esta  semana, o mar sou eu. Como é perversa a juventude do meu coração, que só entende o que é cruel, o que é paixão". Essa visceralidade revolucionária e estética era Belchior. O seu cotidiano era outra coisa que essa mesmice cheia de preconceito que o sistema e o mantra do dinheiro mandam. Belchior cantou e escreveu o amor. Sem medo nenhum de estar, fazer os outros felizes com a sua sublime forma de Arte.

A comédia humana anda perambulando solta por aí com a aquiescência dos cínicos. Como disse Otacvio Paz: "cada leitor procura alguma coisa no poema. E não é nada estranho que a encontre: já que a tinha dentro de si". O amor! Belchior afirmou "mas quando você me amar, me abrace bem devagar, meu bem, o meu lugar é onde quer que ele seja, não quero que a cabeça pensa, eu quero o que a alma deseja". O Belchior não foi um mero legado para nossa História musical, ele foi uma filosofia para a existência humana.

Nietzsche afirmou que a vida sem música é simplesmente um erro, uma tarefa cansativa, um exílio. Já que estamos falando em qualidade Musical, Poética e Estética, a minha geração teve o prazer de saber o que é bom com Chico Buarque de Holanda, Djavan e Belchior. Para encerrar quero lembrar, do grande Belchior, quando diz poeticamente: “arco-íris, anjo rebelde, eu quero corpo, tenho pressa de viver”. Belchior nos livrou do tédio, de um cansativo cotidiano e de uma vida sem filosofia e, portanto, sem poesia...Belchior foi um meteorito, uma constelação que iluminou nossas vidas com a sua irreverência e luz.

(* A foto que ilustra o artigo é a do cantor Belchior, e não do professor que assina o artigo).



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