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Reflexões docentes

Maradona, o aventureiro da liberdade

30/11/2020

Diorge Alceno Konrad
Professor associado do departamento de História da UFSM - SEDUFSM

Por sorte ainda aparece nos gramados, ainda que seja muito de vez em quando, algum descarado cara-de-pau que sai não se sabe de onde e comete o disparate de desmoralizar toda a equipe rival, e ao juiz, e ao público das arquibancadas, pelo puro prazer do corpo que se lança à aventura proibida da liberdade."

(Eduardo Galeano)
 

Como dizer algo novo sobre Diego Armando MARADONA Franco sem cair nos clichês dos obituários, no senso comum dos que adoram o futebol e idolatram ídolos, na clivagem a-histórica dos que separam o genial jogador do sujeito político Dieguito?

Volto a trazer aqui meu argumento central de um artigo de 2006, “Um drible na alienação”, no qual defendia que “alienação, poder político e interesses mercadológicos são sinônimos de futebol”, como na instrumentalização do tricampeonato mundial de 1970 pela Ditadura Brasileira, bem como pelos interesses econômicos que envolvem cada jogo e pela lógica da distração diante do graves problemas sociais de qualquer realidade. Independente de nossa vontade, em uma sociedade onde o capital transforma tudo em mercadoria, inclusive as pessoas, não poderia ser diferente com o futebol. Compreender isto, talvez, seja o primeiro passo, para que aqueles que “vivem do futebol” passem a questionar o sistema que os cerca.

Pois não é que Maradona se tornou gênio e “imortal” para muito além da bola, justamente por isto. Não bastou para ele transformar “la pelota” em uma extensão de seu corpo. Bailarino dos gramados que foi, a bola era um complemento de seus pés e, literalmente, de suas mãos, como naquele jogo inesquecível contra a Inglaterra na Copa de 1986. Levar aqueles que apreciam o futebol ao encanto, tirando clubes como o Argentino Juniors, onde surgiu, e o Nápoli, onde se consagrou, do âmbito dos seus torcedores, fez parte dos desdobramentos de sua genialidade. Mas, levar o futebol para a política e vice-versa, tem sido o que mais se esconde pela mídia empresarial, após a sua morte, deste inigualável “aventureiro da liberdade”.

Definitivamente, assim como a bola e Maradona, não há como separar a imagem tatuada em seu corpo, do que defendeu seu conterrâneo Ernesto “Che” Guevara; não há suficientes fotos com Menem, Lula, ChaveZ, os Kirschner, Pelé e quem mais vier, que o separem de Fidel Castro, seu confidente e amigo, por que a consciência do menino pobre de Buenos Aires se forjou consciência de classe em defesa da libertação latino-americana, tornando-o, neste quesito, o maior de todos os jogadores para os que não se contentam com a manutenção das diversas formas de exploração de nossos povos.

Com Maradona, o futebol deixou de ser mera alienação ou manipulação, oriundas de sectárias interpretações que não conseguem perceber que não é apenas futebol. Reconhecidamente, desde a tradição da história social inglesa, o futebol já foi visto como um meio de disciplinarização e dominação sobre os grupos excluídos, mas também como expressão sociocultural dos trabalhadores fora da fábrica. O grande historiador Eric Hobsbawm nos mostrou que, na Inglaterra, desde os últimos anos da década de 1870, o futebol já possuía uma modesta vida subterrânea como esporte para o espectador operário, se emancipando do patrocínio das classes média e alta na década de 1880, tornando-se cada vez mais parte do universo proletário, tanto para jogadores como para torcedores (Ver o artigo “O fazer-se da classe operária, 1870-1914”, In. Pessoas extraordinárias: resistência, rebelião e jazz. São Paulo: Paz e Terra, 1998, p. 91-114).

No Brasil, mesmo que tenha nascido entre filhos de imigrantes e das classes dominantes, a pressão social, através do futebol, rompeu o racismo ilustrado no “pó de arroz” dos jogadores negros. Continuamos a perguntar quantos clubes “ferroviários” e “operários” nasceram perto dos trilhos de trem pelo Brasil e próximo das fábricas, como forma de ampliação do mundo do trabalho? Não, definitivamente, não é só futebol!

Sob o ponto de vista social, o futebol é o sonho dos garotos pobres da periferia para a ascensão social, mas estimulados pelo individualismo liberal, veem que seu talento no futebol é a saída para uma vida de fama e dinheiro. Este imaginário tem sido mais forte que qualquer debate sobre o tema e Maradona não fugiu disso, também. A doença que o levou a morte precocemente é parte deste sistema que suga os ídolos, que os pressiona para ficarem à mercê de tudo que venda, tornando-o um produto de consumo tão necessário quanto descartável. Os hipócritas de plantão, submissos ao discurso odioso, consumidores de drogas lícitas até quando assistem um jogo de futebol, não compreendem que são tão vítimas como Maradona!

Talvez, exatamente aqui, que o não menos genial Eduardo Galeano tenha dado tanto sentido a sua frase: “Maradona foi o mais humano dos deuses”.

Entretanto, termino, sabedor de que não há palavras suficientes para expressar o que representa Maradona para o futebol e para nós, seus contemporâneos, restando dizer: “Obrigado por tudo Maradona, especialmente por ter vivido, em boa parte, no mesmo tempo histórico que você!”

 



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