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Reflexões docentes

O pai da Itália

16/12/2020

Vitor Biasoli
Escritor e professor aposentado do departamento de História - UFSM

O pai da Itália é um filme classificado no ‘Now’ (Claro/NET) como drama e romance. Filme italiano de 2017, dirigido por Fabio Mollo. Mas eu acrescentaria que é um belo filme de estrada, gay e católico – com a trama bem amarrada por meio de uma das crenças centrais do Catolicismo: a da Mãe Virgem, esteio da Sagrada Família.

A narrativa enfoca um rapaz homossexual em crise conjugal. Ele encontra uma moça numa boate gay, os dois dançam e ela cai desmaiada aos seus pés. Pronto, estão apresentados os dois protagonistas do filme. A mulher está grávida e ele, muito gentil, resolve ajudá-la a encontrar o pai da criança. Eles estão em Turim, a moça diz que é cantora de rock, a banda não a quer mais e ela pede para o rapaz levá-la a Roma, a cidade onde mora. Ela está sempre vestida com um casaco com a Nossa Senhora de Guadalupe estampada nas costas e a imagem religiosa é indicativa do que virá mais tarde. A moça se revela uma enrolona, descolada e sedutora, e o rapaz, emocionado com a sua condição de grávida, se deixa levar.

Difícil escrever sobre filmes sem entregar o jogo e, se o leitor não deseja spoiler, pare por aqui.

A moça não se acerta em Roma (perdeu a moradia provisória que uma amiga emprestara) e a viagem segue para Nápoles, e, por fim, a Reggio Calabria, no estreito de Messina. O pai da criança nunca é encontrado, provavelmente a mulher nem sabe quem seja, e seguem-se cenas de narrativas de estrada (a mulher colocando a cabeça para fora do carro e sentindo o prazer da liberdade) e de narrativas de grávida (a mulher correndo pelas ruas de Nápoles, vestida de noiva e de mão com o namorado gay). Cenas que em outros filmes são divertidas e que, nesse caso, tem um tom irônico e melancólico.

No meio do caminho, o rapaz revela o seu drama conjugal: ele rompeu um casamento de oito anos com outro homem porque ele quis ter um filho, constituir família, e ele não acha isso natural. Não é natural um casal gay ter filhos, ele diz. E, então, a cantora de rock, que não é desse mundo, faz uma conversa básica a respeito da Sagrada Família na mitologia católica: a Sagrada Família, constituída por Maria, José e o Menino, tem bases naturais? Ela não é formada em torno da Mãe Virgem? E a Mãe Virgem, por acaso, tem fundamental natural?

A fala da personagem não é bem assim, mas é isso que ele apresenta. Se a Sagrada Família é o fundamento mítico-religioso do núcleo familiar da civilização ocidental (heterossexual), por que não pode ser da família homossexual também? Milagre por milagre, por que não? Só uma cantora de rock descolada (querendo se livrar de uma maternidade penosa) para arriscar uma argumentação dessas e sair abanando as tranças. Genial, o modo como ela soluciona o drama conjugal do rapaz. Por que ele não pode ser pai, mesmo não sendo o pai natural da criança?

Para quem é mergulhado no mundo católico (especialmente no universo mariano), penso que é um filme imperdível. Desconcertante para muitos, provavelmente. Mas nesses tempos natalinos, tempos em que alguns de nós gostam de costurar narrativas esperançosas, o filme é uma pedida: uma aposta na transgressão do milagre, na transgressão da ordem natural das coisas, e a possibilidade de instaurar e legitimar novas formas de organização familiar.



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