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Reflexões docentes

Por que, afinal, um povo submete-se a um “tirano”?

02/02/2021

José Renato da Silveira
Professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais - UFSM

Stephen Greenblatt,  historiador e um dos mais conceituados especialistas na obra de William Shakespeare, na introdução do ensaio Tyrant: Shakespeare on politics, elabora uma refinada hipótese acerca de William Shakespeare retratar – repetidas vezes – a tensa relação entre a truculência do poder e a docilidade do povo assujeitado.

Não é surpresa ver a presença desse elemento político na obra do bardo no qual encontramos, conforme dito por Hélio Schwartsman: “abordagens complexas sobre temas tão variados como racismo, homossexualismo e assassinato político”.

Desde o começo até o fim de sua carreira, Shakespeare – como um dramaturgo preocupado com as questões políticas – esteve às voltas com uma questão profundamente inquietante: como pode um país inteiro cair nas mãos de um “tirano”?

De acordo com Greenblatt, Shakespeare sugeriu que isso só poderia acontecer quando houvesse cumplicidade generalizada, ou seja, grupos de pessoas que aceitam conscientemente que lhes digam mentiras.

As peças shakespearianas revelam aspectos psicológicos porque as pessoas seguem um líder despreparado para governar, um sujeito impulsivo ou conivente com a corrupção e, ainda mais, indiferente à verdade.

Esse retrato trágico da política marcado pela corrupção moral, pela absoluta desfaçatez do tirano, dos ardorosos e cegos seguidores, a perda de vidas estão presentes principalmente em duas peças em que narram a ascensão e queda de reis, a quintessência dos tiranos: Ricardo III e Macbeth.

Parece que Shakespeare nos ensina – da pior forma possível – como podemos organizar as instituições políticas de modo que os governantes maus ou incompetentes possam ser impedidos de fazer demasiados estragos.

Nesse sentido, lembremos de Platão que criou uma confusão duradoura na filosofia política quando formulou a pergunta “quem deve governar”?

Uma vez formulada a pergunta “quem deve governar?” é difícil evitar uma resposta como “os melhores”, “os mais sábios”, “o governante nato” ou “aquele que domina a arte do governo” (ou quem sabe, “a Vontade Geral”, “a Raça Superior”, “os Trabalhadores Industriais” ou o “Povo”).

De fato, Skakespeare não soube responder essa pergunta capciosa de Platão. Talvez ele até desconhecesse essa questão. O que Shakespeare sabia era que nenhum rei ou rainha exerceu o poder de forma ilimitada mesmo nas suas peças de “ficção” ou de distância histórica. Ele sabia que até a própria rainha Elizabeth I tinha suas limitações, dificuldades e desafios para governar.

Não podemos ignorar – como enfatiza Greenblatt – “Shakespeare foi mestre supremo do deslocamento e do estratégico procedimento indireto. Nunca escreveu “comédias da cidade”, como eram chamadas as peças em ambientes ingleses contemporâneos, e manteve uma distância prudente, com poucas exceções, dos fatos de sua época. Foi atraído por tramas que se desdobravam em lugares como Éfeso, Tiro, Ilíria, Boêmia ou numa ilha misteriosa e sem nome em mar remoto. Quando ele se envolveu com conturbados fatos históricos, crises de sucessão, eleições corruptas, assassinatos, ascensão de tiranos -, tratava-se de fatos acontecidos na Grécia e na Roma antigas, na Britânia pré-histórica ou na Inglaterra de seus trisavôs e até antes”.

Por fim, pensemos desde que os homens permaneçam humanos (desde que o Admirável Mundo Novo não se materialize), não poderá haver poder político absoluto e irrestrito.

Como afirma Popper: “enquanto um ser humano não acumular nas mãos um poder físico suficiente para dominar todos os outros, ele dependerá de auxiliares. Até o tirano mais poderoso depende da polícia secreta, de ajudantes confiáveis e de carrascos. Essa dependência significa que seu poder, por maior que seja, não é ilimitado; ele tem de fazer concessões, jogar um grupo contra outro. Sempre há outras forças políticas, outros poderes além do seu, e ele só pode dominar se consegue usá-los e pacificá-los”.

Parece que Shakespeare antecipou até Sir Karl Popper no que se refere a “cumplicidade venenosa” entre o pretenso tirano e os seus enlouquecidos séquitos para demonstrar a leitmotiv da História, a triste e sinistra marca de nossos tempos.

Fonte: 

https://revistaserrote.com.br/2020/04/o-tirano-segundo-shakespeare-por-stephen-greenblatt/

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2021/01/shakespeare-na-america.shtml

POPPER, Karl Raimund. Textos escolhidos. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: CONTRAPONTO: Ed. PUC-Rio, 2010.

 



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