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As “doces” ilusões midiáticas

Por:  Fritz Nunes*

Ser um comunicador ou ter formação na área faz com que tenhamos um certo cuidado em criticar os meios de comunicação, dos quais somos partes integrantes de alguma forma. Há nisso um certo grau de corporativismo, inegavelmente. Nos sentimos, muitas vezes, os “donos do saber” naquilo que fazemos. Entretanto, o cotidiano tem mostrado que a mídia está se distanciando de sua responsabilidade social e cada vez mais preocupada em vender “doces ilusões” aos “consumidores”. Um fato recente foi a cobertura acrítica em relação à seleção brasileira. Os interesses comerciais, de patrocinadores, como bem denunciam Juca Kfouri, entre outros poucos, é que muitas vezes parece mover a “imparcialidade” da imprensa. Enquanto isso, o torcedor brasileiro, levado ao extremo ufanismo, comprou gato por lebre, achando que realmente tínhamos o “dream team”.

De uma forma geral, pecamos pela superficialidade ou falta de criticidade. Uma reportagem pode aprofundar à exaustão o passado e a intimidade da família Richtofen e dos irmãos Cravinhos, mas é incapaz de se interessar em mostrar em horário nobre como funciona e quais as causas da corrupção no parlamento brasileiro. Também não se importa, por exemplo, em debater aprofundadamente as origens do conflito entre árabes e israelenses. Em outras palavras, passa à sociedade uma falsa impressão de que informa, mas muitas vezes o que realmente faz é “deformar”. Parece não haver interesse em gerar consciência através do debate. O que fica valendo no cotidiano é a transformação da notícia em espetáculo. Mas, achar que a função da imprensa é levar à reflexão ou à consciência nos dias atuais é acreditar em quimeras.

A tentativa de fazer algum tipo de debate se restringe aos grandes jornais ou aos programas jornalísticos de tevê a cabo, lidos ou assistidos por uma “minoria branca”, como diria o governador Cláudio Lembo. Mesmo assim, é uma tentativa muito tênue, que não chega a contrariar o senso comum. Na Folha de São Paulo, o ombudsmnan (espécie de ouvidor), que tem a função de criticar o jornal na perspectiva do leitor, abordou em uma de suas colunas semanais a postura do periódico ao destacar de forma exagerada as acusações sem provas de integrantes da oposição de que o PT teria vínculos com a facção criminosa PCC. Se percebe assim, que, nem mesmo os jornais mais respeitados escapam desse “oba-oba” irresponsável que se tornou o dia-a-dia da imprensa. Denuncia-se, mas o denunciado que prove que não tem culpa em cartório. Essa é a ilusão vendida aos cidadãos: de que vivemos numa democracia midiática. Doce ilusão: basta ver a concentração dos meios de comunicação e veremos que a distribuição deles é muito semelhante à distribuição de renda no Brasil, uma das piores do planeta.

(Publicado no jornal A Razão do dia 24.07.2006)

* SEDUFSM



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