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Felippe D'Oliveira na SEDUFSM

Por:  Pedro Brum Santos*

Mário de Andrade, que além de poeta era um vigoroso crítico literário, afirmou uma vez que “O epitáfio de não foi gravado” estava entre os poemas mais bem executados da literatura brasileira.

O poema começa por nos dizer que “a que tinha de morrer”, resignada, fecha os olhos “fatigados de assistirem ao mal entendido da vida”. Morre tranqüila com sua imagem virginal e imaculada. Sua perda é chorada pelos testemunhos da hora derradeira. Os que a choravam, no entanto, nunca souberam os motivos de um único assistente que, na hora fatídica, mostrou-se o mais imóvel, o único que “não soluçou”. Somente a morta – “a que tinha de morrer” sabia que no sangue de tal acompanhante clamava “o desespero de sobreviver”. Sabia-o, enfim, encarregado da missão de depor, “sobre a serenidade da morte purificadora, / a redenção do silêncio, / como uma pedra votiva de sepulcro”.

A cena flagrada por esses versos e o segredo da moribunda nos ensina desse jogo entre forma e fundo que é tão próprio da vida de todos nós. A morta tem, pois, sua forma pública. Que todos a conheçam e que a guardem na memória, é seu alívio na hora da morte. No entanto, tem também seu fundo, sua face secreta, a paixão que não pode se revelar, a não ser no segredo da alcova, num recanto a dois. Que a única testemunha, que é seu próprio par, disfarce sua dor na indiferença diante do corpo moribundo, é condição e garantia de um mistério fadado ao indissolúvel. “A que tinha de morrer” vai, enfim, descansada, posto que a face pública que guardou em vida, irá sobreviver aos tempos. Assim o poema arma esse bem urdido jogo entre, amor e segredo, sociedade e conveniência, aparência e verdade, sugerindo-nos que uma morte pode conter muitas vidas que não mais se revelarão, ou, como quer a imaginação lírica do poeta, muitos epitáfios que não são gravados.

“O epitáfio que não foi gravado” é um dos pontos altos de Lanterna verde, livro que, em 2006, completa 80 anos de existência. Seu autor, Felippe D’Oliveira, nasceu em Santa Maria num 23 de agosto de 1890 e aqui morou até a adolescência. Quando lançou Lanterna verde já era poeta consagrado no Rio de Janeiro. Em vida, suas atividades espalharam-se pela indústria farmacêutica, publicidade e propaganda, crítica de arte, esportes náuticos e assessoria política.

Reler sua poesia é verificar como que ela resiste ao tempo e à impressionante sombra que lhe lançou a figura eclética e bem-quista do autor, sobretudo com o culto que se seguiu à sua morte prematura ocorrida em 1933. Boa oportunidade para conferir tudo isso no Cultura na SEDUFSM desta segunda, às 19h.

(Publicado no jornal A Razão do dia 14.08.2006)

* UFSM



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