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Federico García Lorca, 70 anos depois

Por:  Luciana Ferrari Montemezzo*

O evento mensal Cultura na SEDUFSM, em julho de 2006, prestou justa homenagem ao poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca (1898-1936). Morto nos primeiros momentos do levante militar que, mais tarde, configuraria a ditadura fascista comandada pelo general Francisco Franco, Lorca tornou-se símbolo da Espanha que lutava por liberdade. Sua fama ultrapassou as fronteiras do país, não só pelo fuzilamento brutal que o surpreendeu em Granada, mas, sobretudo por sua literatura, repleta de vida.

Infelizmente, as circunstâncias que vitimaram García Lorca não são exceções na História da humanidade. São, isto sim, gritantes e tristes exemplos da dificuldade inerente do ser humano para lidar com a diferença, que leva ao silenciamento das dessemelhanças. Esse foi o caso de Federico, artista multifacetado que acreditava no poder desacomodador da arte na sociedade e fazia do seu teatro uma declaração de amor à República espanhola e aos ideais democráticos por ela apregoados. O poeta pagou com a vida por essa atitude. Por isso, ainda hoje, García Lorca é retomado, lembrado, homenageado. Porque o homem foi morto, mas a sua obra ainda é eloqüente e nos fala da beleza que a verdadeira liberdade proporciona. A liberdade de pensar, ainda que em silêncio, como afirma Mario de Andrade, ao referir-se ao assassinato do autor granadino, em 1944, no artigo “Lorca, pobre de nós”, para a Revista Leitura (RJ).

Ainda hoje, a simples menção de seu nome parece evocar martírio e sacrifício, de um lado; alegria e celebração à vida, de outro. A montagem de uma de suas peças, muito mais do que mera atividade artística, é ocasião de trazer à tona novos questionamentos acerca da vida, da morte e da condição humana. Condição que vai além do simples existir, que transcende à demarcação cronológica e histórica, e consegue alcançar a essência de cada leitor que o descobre, de cada espectador que se deleita na platéia, de cada novo ator que representa uma de suas fascinantes personagens e de cada diretor que o traz à cena.

O evento da SEDUFSM foi uma oportunidade concreta de ver toda a potencialidade, ainda a ser desvendada, que o conjunto da obra lorquiana encerra. E nos deu, também, a chance de retomar seu nome em um momento político muito diverso daquele que o vitimou, mas igualmente carente de idéias que incomodem e desacomodem a ordem pré-estabelecida, baseada na reprodução acrítica de conteúdos repetidos à exaustão.

(Publicado no jornal A Razão do dia 28.08.2006)

* UFSM



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