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Sustentabilidade e responsabilidade acadêmica

Por:  Wilton Trapp*

A pretensa neutralidade da ciência sempre andou aliada ao poder político e às grandes corporações, sócios fundadores da sociedade amigos da acumulação. Pesquisas dessa natureza são sempre cercadas de algum mistério, pois a transparência pode afetar os negócios a elas relacionados. Dito isso, falemos do debate a respeito dos planos de reflorestamento do sul do estado. Do lado das empresas, há argumentos sobre os empregos a serem gerados e demanda mundial por celulose. Na outra ponta, cientistas e entidades chamam a atenção para os possíveis danos ao ambiente natural.

Historicamente, o bioma pampa tem sofrido as conseqüências de práticas irracionais de exploração dos recursos naturais, como a retirada massiva de pau-ferro das missões, o avanço da monocultura do arroz sobre os banhados e matas ciliares da campanha, bem como as agressões aos capões de mata e plantas rupestres típicos da serra do sudeste, ambientes pouco estudados pelos botânicos e com diversidade faunística desconhecida pelos zoólogos. Não obstante, quando seria necessária uma mudança de rumos, pressupondo a convivência harmônica na perspectiva da agroecologia e permacultura, acaba prevalecendo a tese do agronegócio, representada pelas monoculturas de eucalipto, que poderão trazer resultados imprevisíveis sobre a natureza. Enquanto a fragilidade e a resiliência do bioma pampa são pouco conhecidas, a UFSM, revelando seu desprezo pelo problema, coloca, de forma burocrática, a questão somente nas mãos dos cientistas florestais.

Sem nenhum demérito, entendemos que o pressuposto de ser especialista em monoculturas não pode ser aplicado a esse bioma, muito mais complexo que o conhecimento que até hoje se tem dele. O restante da comunidade acadêmica, bem como os habitantes da metade sul, ficaram à margem do processo, pois suas concepções de ecodesenvolvimento são ignoradas deliberadamente. A Universidade, caso tenha vontade política, poderá mostrar à sociedade a sua preocupação com a vida e a natureza, ou culpabilizar-se pelos colapsos futuros. Só para exemplificar a complexidade do ecossistema, o ato de confinar as lagartixas nas rochas, respeitando a distância de 50m até os limites dos desertos verdes, poderá significar a sua condenação à extinção. Este procedimento poderia ser considerado ecologicamente correto, mesmo sendo um legítimo placebo ambiental? (Também assina este artigo o professor da UFSM, Renato Aquino Zachia)

(Publicado no jornal A Razão do dia 04.09.2006)

* UFSM



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