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Ferroviários II

Por:  Júlio Cezar Colvero*

A Providência determinou que o artigo escrito a 1º de setembro – Dia do Ferroviário- fosse publicado uma semana depois. Ocorre que lembramos que seríamos visitados pelo Presidente da República. Achei bom, pois poderia ele anunciar as medidas de desapropriação da Casa de Saúde. Não o fez. Será que a saúde pública defendida e efetivada pelos ferroviários, criando a Casa de Saúde, propriedade da Coopfer, fruto de extraordinário esforço. Verdadeira doação dos que labutaram, criando escolas, reduzindo seis parcos vencimentos até na questão alimentar, para fazer da saúde e da educação dos seus descendentes um marco indelével da aspiração cidadã. Dizia “Seu José”, quando vivo e estudava no Maneco, muitos “tucos” (trabalhadores de linha), chegavam a desmaiar pela falta de alimentação, contribuindo com o desiderato a que se propunham.

Os heróis da jornada ferroviária se alargam nos horizontes nos horizontes, pois além da clara, pois além da clara definição laboral, tinham olhos no futuro e não aceitavam migalhas ou doações extemporâneas. Nas muitas greves que ocorreram, viva na memória, meu “trem furador de greve”- os chamados pelegos- despejavam durante o trajeto sacos com alimentos, que alguns se apoderavam, e era isso que queriam, mesmo não sendo da empresa. Menino ainda, corri a avisar m,eu pai, que me respondeu: “Pode olhar, não pega nada, são os fura-greves, os pelegos.” Quase questionei, pois além de verduras e outros produtos que possuíamos, já nos faltavam alimentos. Entendi a mensagem e dói ver que ainda esse tipo de processo prospera, em busca de votos. A saúde e a educação formal, continuada, tecnológica, foram destruídas. Há mais de 65 anos tudo isso já se manifestava necessário, sendo construído pelos visionários de então, precursores de fato, idealizadores, mas com realização efetiva.

É de bom alvitre recordar que havia repressão. Certa vez, combinado que após 15 minutos do apito do início do expediente, um voluntário apitaria de novo, determinando a largada do trabalho e início da nova paralisação reivindicatória. Mas, um pelego retirou a escada por onde subira meu pai- José Garibaldi Colvero-, ficando ele pendurado no fio que mantinha o apito estridente e cada vez mais prolongado.

Ocupado o quadro da estação e oficinas pela força policial, vinha “seu José”, preso que fora. A poucos metros da saída, o Exército já começava a ocupar o espaço. Neste momento, o comandante à época da 3ª DI, como se chamava o sr. Osvino Ferreira Alves, determinou a soltura de meu pai e mandou-o para casa em seu carro. Disse então o comandante: “Aqui mando eu”. E eu, complemento: “Morrem homens, não morrem ideais.”

(Artigo publicado no jornal A Razão do dia 18.09.2006)

* SEDUFSM



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