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O sonho acabou?

Por:  Ester Wayne Nogueira e Maria Beatriz de Morais Carnielutti*

Era uma vez um país onde vivia um povo que ousava sonhar. Sonhava. Este sonho fazia parte do seu viver. Por ele construía a trilha do seu caminho. Aspirava a mudanças, e nas pequenas coisas encontrava a possibilidade de escalar mais um degrau rumo ao sonhado. As pequenas coisas deixavam a marca da sua passagem. Importava muito o crescer pessoal, mas este não era desvinculado do fim maior, era um meio de chegar até lá. Esta esperança de mundo era passada para as outras gerações, até nas rodas à beira do fogo. Tão comum, tão normal, tão povoado de ética e de moral. O crescer, o estudar e a independência financeira, tudo fazia parte dele. Não se desvinculavam, era um todo sonhado. Irão dizer, na época era fácil. Não, não era, precisava querer e querer muito.

As crianças podiam brincar, a rua era um lugar seguro. À noite, sob o luar de verão, as pessoas sentavam à frente de suas casas. A roupa de domingo, da ida à missa, da matinê, nada parecido com as roupas de grife e o tênis de marca. Tudo isso parece estar tão longe. Em que altura do caminho dobramos a esquina errada, que nos levou a estas paragens? A rua não é mais o lugar seguro para convivermos e nossas crianças não sabem o gosto de pular na corda, jogar bolinha de gude e brincar de esconde-esconde. Tudo ocorrendo na frente de suas casas. Não fazia parte desse sonho pessoas famintas, desempregadas, morrendo em corredores de hospitais. Nem crianças nas ruas, drogadas, trocando suas vidas infantis por armas e degradação.

O certo e o errado ficaram difíceis de serem diferenciados. O errado passou ser o que não beneficia e, naturalmente, o certo é o que se consegue com essa vantagem. E, é defendido com a maior cara-de-pau. O escrúpulo parece coisa de babaca. A corrupção tem raízes que já estão profundas. Os políticos mudam de partido logo após a eleição num desrespeito àqueles que os elegeram, são acusados de maracutaias mil, não são punidos, fazem acordos inescrupulosos e nada, nadinha de nada acontece. E nossas crianças crescem neste cenário. Como mostrar a elas que este caminho leva à falta de auto-estima, à acomodação e à descrença do porvir. No artigo “Adolescentes”, Contardo Calligaris, publicado na Folha de S.Paulo, em 11.01.2007, apresenta um estudo sobre os motivos que levam os adolescentes a afastarem-se da escola. Tudo indica que os nossos jovens não sonham mais.

(Artigo publicado no jornal A Razão do dia 12/02/07)

* SEDUFSM



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