Artigos

Pelo telefone

Por:  Ester Wayne Nogueira e Maria Beatriz de Morais Carnielutti*

Há mais de quatro décadas, quando cheguei a Santa Maria, fui trabalhar num órgão público e fazia parte do quadro, um senhor que tinha como incumbência fazer a entrega de papéis e documentos a outros estabelecimentos vinculados ao nosso. Como ninguém é de ferro e os ordenados eram minguados, nosso colega costumava fazer a ronda nos bares locais e espichar a folga do domingo.

Numa terça-feira, como o habitual, chegou meio cabisbaixo, alguém fez uma “gracinha” e ele rapidamente, respondeu: “É um perigo a gente estar vivo.” Durante muito tempo a frase foi usada como piada, mas eu nunca esqueci. E, hoje, acho que ela está mais presente do que nunca. Não sou saudosista e acho que neste andar muita coisa melhorou.

A modernização dos costumes e a tecnologia nos deram um empurrão para frente. Nós que já caminhamos mais, se olharmos para trás veremos, com certo espanto, como as pessoas se mantiveram mais jovens, mais abertas para receberem as inovações e desfrutarem melhor a vida. Mas, também acho que não precisava exagerar. Nas nossas cabeças não cabe mais espaço para absorver tantas ações, no mínimo, suspeitas. O Poder Executivo está minado de acusações, seu alicerce deve estar todo corroído. Afastam-se componentes dos ministérios com a naturalidade de quem tira uma erva do jardim, porque está tirando a beleza do local. E, tudo continua como antes. Nem vermelhinhos eles ficam, muda-se de assunto.

O Poder Legislativo foi minado por anões, mensaleiros, sanguessugas e tudo mais que se pode imaginar. Agora, com vergonha de ficar para trás, levanta o Judiciário a sua toga, para mostrar toda a corrupção que se instalou por baixo dela. E, seguindo o roteiro, há famílias comprando vagas nas universidades, por valores entre R$ 25 e R$ 70 mil, para que seus filhos tenham lugar em cursos onde a concorrência é muito grande. Estão formando dentro dos lares os futuros corruptos, com a benção paterna.

No último carnaval completou 90 anos do sucesso do primeiro samba gravado. Donga, seu compositor, nos mostra que a farra vem de longe. E, a denúncia do sambista, levou Fernando Barros da Silva, parodiar e atualizar, o que chamou, em artigo na Folha de S.Paulo, em 23/04/07, de “Um Samba para a Justiça” transcrevo: “O chefe da Justiça/Pelo telefone/Mandou me avisar/Que no Tribunal/Tem uma sentença/Para se comprar”...

* SEDUFSM



Compartilhe com sua rede social!

© 2017 SEDUFSM
Rua André Marques, 665 - Centro, Santa Maria, RS - 97010-041
Website por BM2 Tecnologia em Internet