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Pan-Americanos: esporte para poucos

Por:  Maristela da Silva Souza*

Nosso ponto de partida para encaminharmos uma discussão sobre Jogos Pan-Americanos é sua inserção no plano político-cultural da sociedade.

À medida em que a prática social humana foi tornando-se complexa, resultante dos desafios postos na relação sujeito e natureza, as atividades corporais aperfeiçoaram-se, tornando-se, juntamente com as posturas morais e valorativas, atividades produtoras e produtivas da história da humanidade. Neste processo histórico encontra-se a prática do esporte, que aparece como resultante de modificações de jogos populares, que juntamente com o processo de industrialização capitalista, assume características modernas como a competição, o recorde e o selecionamento. À medida em que assume este caráter, o esporte deixa de ter significado apenas para a sociedade civil e passa a ser interesse do Estado e da esfera privada. A relação do Estado e da esfera privada com o esporte é expressa, principalmente, em organizações esportivas, tal como os Jogos Pan-Americanos, que no ano de 2007, realiza-se na cidade do Rio de Janeiro.

O governo brasileiro assumiu na íntegra o financiamento, estimado primeiramente, em R$ 1 bilhão, mas que hoje chega a R$ 3,8 bilhões. Os recursos destinam-se a construção de obras e aquisição de bens e serviços, como exemplo, a construção da Vila Pan-Americana.

Enquanto ocorre este investimento bilionário em um evento onde poucos participam e muitos aplaudem, as escolas continuam desaparelhadas e políticas públicas para atender as necessidades de esporte e lazer do povo brasileiro apresentam-se insuficientes. Este quadro evidencia a rendição do esporte à lógica do mercado, transformado em produto de consumo, bem como, o seu uso para disseminar a ideologia que oculta e manipula imaginários. Chavões como “esporte educa”, “esporte é disciplina”, “esporte é saúde” nos são impostos diariamente, sem o questionamento de, por exemplo, para que o esporte educa? Seria para aprendermos a ganhar e a perder em uma sociedade em que não oferece iguais chances a todos? Esporte é exemplo de saúde, já que os atletas convivem com a dor e usam o doping para atingirem recordes e ultrapassarem os seus limites?

O esporte, enquanto prática cultural, traz consigo possibilidades contraditórias, estabelecidas em sua própria dinâmica, de forma que é possível privilegiar a solidariedade sobre a rivalidade e a autonomia sobre a submissão, enfim, um esporte que possa ser adquirido como bem cultural, cuja prática passa a ser compreendida como direito e como possibilidade de sucesso para todos, o que com certeza, os Jogos Pan-Americanos não representam.

(Artigo publicado no jornal A Razão de 18/06/2007)

* SEDUFSM



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