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Arboricídio legitimado

Por:  Wilton Trapp*

“A sociedade da acumulação acabou acumulando um passivo de custos sociais e ecológicos, em vez de riqueza” (Albert Tévoédjrè, 1977)

Quem defende as monoculturas de eucalipto como solução para a metade sul omite deliberadamente as seguintes questões: a) a existência de uma imensa riqueza de flora e de fauna que precisa ser mais estudada, e por isso invoca-se o princípio da precaução, o que faz do zoneamento ambiental um instrumento rigoroso e atualizado, motivo pelo qual não foi aceito pelas empresas papeleiras; b) nos países de origem destas empresas, as leis ambientais e a consciência ecológica da população não permitem tais abusos; c) a análise das comunidades vegetais e animais, passíveis de dano ambiental, deve levar em conta um contexto amplo de interações e interdependências, sob pena de promover graves desequilíbrios e a extinção das espécies; d) a promessa de emprego esconde a troca do peão assalariado pelo bóia fria, diarista, sob precárias condições de trabalho, com o fim único de produzir celulose para exportação; pois para o consumo nacional de papel, há outras matérias primas disponíveis na flora brasileira, cujo uso poderia ter custos ambientais e sociais zero; e) após os cortes, teremos de sobra o esgotamento do solo, dos recursos hídricos, o envenenamento da terra, vide os exemplos do Espírito Santo e do sul da Bahia; f) as comunidades tradicionais do pampa correm sérios riscos de desaparecer, como é o caso do gaúcho típico, do “pêlo duro”, se não levarmos em consideração as alternativas diversificadas de culturas disponíveis e mais apropriadas a essa região.

Por tudo isso cabem as seguintes reflexões: a) é inadmissível que docentes orientem estudos de pós-graduação e suas pesquisas cotidianas, pagos com o suor deste massacrado povo brasileiro, dedicando boa parte do seu tempo para legitimar os interesses das grandes corporações; b) é inaceitável que utilizem a sala de aula para convencer seus alunos da neutralidade da ciência e das maravilhas do eldorado verde, leia-se lavouras de eucaliptos, omitindo didaticamente toda a dimensão do problema. Fico imaginando onde vai parar esta ânsia pelo lucro e pela acumulação, e o que restará para as gerações futuras. E a Universidade Federal de Santa Maria apóia essa prática tacitamente, marchando a passos largos para a privatização e jogando no lixo seu Projeto Político- Pedagógico.

(Artigo publicado no jornal A Razão de 25/06/07)

* UFSM



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