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O combate à intolerância

Por:  Diorge Alceno Konrad*

Cascavel – PR. Um trabalhador, buscando seus direitos, recorre à Justiça do Trabalho, mas o juiz não realiza a audiência, pois ele se apresenta “de forma incompatível com a dignidade do Poder Judiciário”: está sem sapatos e usa apenas um chinelo de tiras.

Rio de Janeiro – RJ. Empregada doméstica negra acorda na madrugada de um sábado, com as pretensões de ir a uma consulta médica. Na parada de ônibus, garotos de classe média alta lhe mandam direto para o hospital, depois de uma saraivada de pontapés. Argumentam preconceituosamente, após a prisão, pensarem tratar-se de uma prostituta. O pai de um deles clama que seu filho, universitário, não pode ser punido por um ato juvenil.

Dom Pedrito – RS. Um torcedor, ajudante de pedreiro, negro, entusiasta de seu time, na derrota do clube adversário, por alguma “flauta” tem seus pulmões arrebentados e é morto a pontapés por pessoas “de bem” do município.

Porto Alegre – RS. Nas calçadas em frente à UFRGS, na conjuntura de discussão sobre as políticas afirmativas e no ingresso na universidade federal, através de cotas para negros e oriundos de escolas públicas, frases são pichadas de forma clandestina ma madrugada: “voltem para a senzala”; “Negros: só se for na cozinha do Restaurante Universitário”.

Santa Maria – RS. Dois casais de amigos, um deles de namorados e acadêmicos, sendo um negro e uma branca, são cercados por vários jovens na madrugada. Ameaçadores proclamam frases infames: “como pode uma branca namorar um negro”. Que dias tristes estamos vivendo!

Logo surgem buscas de explicações: os jovens não têm mais limites; as famílias estão desustruturadas, etc. A responsabilidade está sempre nos indivíduos, procurando-se discutir as conseqüências, nunca as razões mais profundas. Quanta hipocrisia!

Recordei-me de uma propaganda de meados da década de 1990 que dizia “a realidade não existe” (niilismo), “cada um na sua” (individualismo), “mas pelo menos temos algo em comum” (daí o consumismo do produto ofertado, coincidindo o nome com uma noção do que é ser livre). São estes os valores que se quer de todos nós na atualidade, na chamada “Pós-Modernidade”, a qual poderia ser conhecida também como a “Era da Barbárie”? Querem que sejamos sujeitos sem preocupação com a realidade, individualistas e consumistas? Que noção de liberdade é esta? Depois, perplexos, vamos tentar achar explicações quando um garoto mata outro por um tênis de marca.

É hora de dizer um basta à intolerância, mas também procurar a essência dos fenômenos que a causam, entre elas, a noção de direito de jure e direito de facto, na qual, alguns são mais iguais que os outros. Senão, como explicar que um dos assassinos do índio Galdino foi promovido como dentista do Tribunal de Justiça do Distrito Federal após concorrer a 12 vagas para vigilante, sendo que obteve o 65º lugar e seu pai, presidente do órgão, aumentou as vagas para 70?

(Artigo publicado no jornal A Razão de 02/07/2007)

* SEDUFSM



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