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A metáfora da vida

Por:  Fritz Nunes*

Novamente o Fórum Social Mundial (FSM) ganha as manchetes do Rio Grande do Sul e do Brasil, a partir da participação de milhares de pessoas de vários continentes, não apenas pelo seu caráter de discussão política, com slogans sonhadores como “outro mundo é possível”, mas também muito em função da geração para Porto Alegre de dividendos financeiros num período normalmente de vacas magras. É de se lamentar que nos próximos dois anos os gaúchos e brasileiros não tenham esse privilégio, pois, afinal, ao menos durante o FSM ainda se pode pensar em coisas aparentemente utópicas como a transformação do mundo.

A realização do Fórum me fez lembrar uma história contada durante o Fórum Mundial de Educação, também em Porto Alegre, em 2004. Participando de uma mesa de debates, o educador argentino radicado no Brasil, Pablo Gentilli, relatou uma história que emocionou a todos. Segundo ele, o diálogo que reproduziu teria ocorrido em 2003 entre o sociólogo Emir Sader e o escritor uruguaio Eduardo Galeano. Emir Sader, após uma entrevista concedida por Galeano a uma emissora de TV, teria feito a seguinte pergunta ao escritor:

- Qual foi para você o maior jogador de futebol de todos os tempos?

Sem hesitação, Galeano respondeu ao interlocutor que o maior jogador de todos os tempos se chamava Obdulio Varela, capitão da seleção uruguaia em 1950, que venceu o Brasil em pleno Maracanã. Após essa resposta, seguiu-se o silêncio, relatou Gentilli, reproduzindo informação de Emir Sader, que para quebrar a estupefação geral, pois todos esperavam que o nome citado fosse o de Pelé, fez outra interrogação:

- Eduardo, por que Obdulio Varela?

Aí, então, Galeano detalhou a história. Segundo ele, num determinado dia teve um diálogo com o ex-capitão da seleção uruguaia. Nesta conversa, Varela teria contado que, em 1950, às vésperas da decisão da Copa do Mundo, os brasileiros já se sentiam vitoriosos e faziam pouco caso dos uruguaios. Profundamente indignada, a seleção uruguaia entrou em campo jogando a sua pátria. E, o resultado se sabe: 2 X 1 para o Uruguai em cima do Brasil. Após a vitória, festa uruguaia no hotel. Varela, um homem do povo, não se contentou com uma festa privé e fugiu do hotel, passeando pelos bares do Rio de Janeiro. Em cada um dos locais que chegava, comoção popular. O capitão uruguaio acabou desistindo da sua comemoração e relatou a Galeano que era impossível comemorar com tanta gente triste ao seu redor.

Eduardo Galeano disse então a Emir Sader que a atitude de Obdulio Varela foi o maior exemplo de solidariedade, de consciência humana que já tinha presenciado. Por isso, considerava Varela o jogador de futebol mais valoroso de todos os tempos. Essa história foi usada por Pablo Gentilli durante o Fórum Mundial de Educação para fazer um paralelo com a realidade em que vivemos, em que tantas injustiças são cometidas, muitas vezes com a insensibilidade e a falta de solidariedade de todos nós.

* SEDUFSM



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