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O ‘reverso’ da moeda

Por:  Fritz Nunes*

Há duas semanas que o Brasil assiste pela imprensa os capítulos dramáticos relacionados ao acidente com o avião da TAM, no aeroporto de Congonhas, no qual morreram em torno de 200 pessoas, algumas delas com vínculos em nossa cidade. Qualquer tragédia sempre chamará a atenção pelos dramas individuais ou coletivos, porém, numa sociedade pautada muitas vezes pelo sensacionalismo midiático, o que chama a atenção neste caso foi a tentativa, já nas primeiras horas após o acidente, de culpabilizar de forma irrefutável o governo federal.

Certamente que a lerdeza do atual governo na resolução dos problemas da aviação não carece de elogios, mas absurdos foram cometidos, como o fato de colunistas de grandes jornais apontarem para o governo como sendo o responsável pelo “crime”, sem saber se realmente houve crime. No entendimento de alguns tarimbados jornalistas, entre os quais, Paulo Henrique Amorim, Luiz Carlos Azenha e Mino Carta, os oligopólios de comunicação teriam se aproveitado mais uma vez para assumir uma oposição “golpista”, tendo em vista que a popularidade do presidente Lula continua aparentemente inabalável.

Em qualquer acidente de grandes proporções, misturam-se dor e indignação. As pessoas querem a todo custo encontrar o culpado. Mas, e se não houver um único culpado e essas responsabilidade estiverem diluídas numa estrutura cuja incompetência é a resultante da ganância das empresas com a ausência de um Estado disciplinador? Se tem um motivo para que se acuse o governo Lula é de que foi negligente no trato de estruturas herdadas, em que entidades que eram para regular e evitar os abusos do mercado, como a ANAC (Aviação Civil), Anatel (Telefonia), Aneel (Energia), na verdade acabam atuando como correia de transmissão do setor privado. Mas, não se pode esquecer que se existe um caos, ele deve ser remontado aos oito anos do governo PSDB/PFL, em que a privatização era a saída para todos os males do Brasil.

Essa, digamos, “má vontade” que a imprensa teve com o governo Lula contrastou com a boa vontade que se teve com a empresa aérea. Como bem registrou o jornalista Carlos Brickmann (Observatório da Imprensa), se o governo era o “criminoso” em virtude de supostas más condições da pista, o que falar do presidente da TAM, que primeiramente alegou que a aeronave não tinha problemas e depois admitiu que um dos reversores (do sistema de frenagem) não estava funcionando? Será que pelo fato de a empresa ser um grande anunciante ninguém teve a coragem de dizer que ele mentiu?

Diante de tantas contradições, imagens deprimentes, o que fica é que precisamos ter um pouco de serenidade diante de situações trágicas. A histeria nos leva a cometer injustiças. Em julho de 2006 perdi uma irmã num acidente de carro em Porto Alegre. Mais de um ano depois, ainda não se tem o resultado do inquérito. Nem por isso acho que devemos sair por aí acusando quem quer que seja. As autoridades podem ser morosas, as leis podem ser imperfeitas, mas, pior que isso é a injustiça.

* SEDUFSM



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