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Coisas de gênero

Por:  Luiz Carlos Nascimento da Rosa*

Existe uma letra de música, que toca muito nas rádios, do contexto regionalista do Rio Grande do Sul, que diz o seguinte: “naqueles tempos sim/os campos engordavam os bois/os bois engordavam os homens/e os homens engordavam as mulheres/naqueles tempos sim”.

Tempos aqueles que, apologeticamente são defendidos na letra da música, as mulheres eram seres humanos de cozinha e cama. As mulheres, na cozinha, preparavam o banquete para saciar a fome de seus homens. Os seus corpos, na cama, ficavam a disposição para que os homens saciassem suas necessidades. Homem construía e engordava, a mulher obedecia e paria.

Bicudos este tempo e sofrível a função social das mulheres. Marginal era o papel da mulher, indelicados e machistas configuravam-se os homens. Felizmente, subverteram as normas as mulheres e, nós homens, nos transfiguramos com a História e a construção de um novo tempo.

As mulheres, nesse nosso novo tempo, deram início à construção de seus desejos e, começaram a projetar e consolidar seu mundo de sonhos. Nós homens transformamos alguns fazeres das mulheres em nossos prazeres e objetos de desejos. O que é mais essencial e importante, nós homens, freudianamente, nesse novo tempo, transformamos as mulheres em nossos verdadeiros objetos de desejos.

As mulheres, nesse outro tempo, deixaram de ser uma mera mulher objeto. Engordar ficou fora de moda. Compartilhar e colaborar viraram norma de conduta e palavras de ordem para essa outra forma de vida.

Tampas, taças e panelas não são coisas só de mulher. O tilintar das taças e o ranger das tampas com as panelas, na cozinha, são prazeres que os homens podem curtir e propiciar. O ser homem descobriu suas novas essências. Nós homens, agora sim, também, podemos ancorar nossa nau da imaginação no porto estético e seguro das tampas, panelas, essências e temperos. Descobrimos novos rituais para abrir as portas de entrada da sedução e do desejo. Nesse novo tempo, nós homens, verdadeiramente, descobrimos a sedução, o sonho e o desejo.

Sou confesso, sinto-me um ser humano contemporâneo. Para ser sincero, faço apologia a esta nova ordem do dia. Meu lugar é também na cozinha. Apesar de ser um professor de Química, transformo-me em um moderno “Alquimista” quando estou lidando com panelas, taças, tampas e temperos. Os campos vão continuar engordando os bois, para nossa felicidade e da agroindústria. Agora, neste novo tempo, nós homens, colaborativamente com as mulheres, colocaremos para funcionar nossas subjetividades para fazer de nossas cozinhas uma linda fábrica de desejos e sonhos.

* UFSM



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