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A cultura em torno do umbigo

Por:  Fritz Nunes*

Cenário número 1, Brasília: Severino Cavalcanti, deputado do PP pernambucano se elege presidente da Câmara dos Deputados. Qual o primeiro compromisso do parlamentar? Reajustar os vencimentos dos deputados. Cenário número 2, Santa Maria: produtores rurais desviam o curso de rios em plena seca para as suas lavouras.

O que estes dois cenários têm em comum? Arrisco a dizer que a relação entre os fatos está na visão de determinados setores sobre a naturalidade em apropriar-se do que é público, transformando-o em privado. Sabe-se que esta cultura de privatização dos bens públicos é antiga, vem desde os tempos de colonização deste país. No entanto, às vezes nos questionamos sobre a dificuldade de ultrapassar esta visão, cujo único resultado é amesquinhar o futuro do Brasil como uma verdadeira nação.

É de se perguntar como pode haver, no caso dos deputados federais, tanto distanciamento entre o que eles “pensam” ou “desejam” e o cidadão que os elegeu. Como é possível, num país em que o salário mínimo deve ir para 300 reais, que um parlamentar que recebe, sem contar os penduricalhos, 12 mil reais em números redondos, achar que é justo aumentar o próprio vencimento para 21 mil reais? Sem dúvida, Brasília se parece mais com uma “ilha da fantasia”.

Mas, para não ficarmos somente na eterna “Geni”, aquela célebre personagem da música de Chico Buarque, odiada por todos, e na qual todos queriam atirar pedra, representada neste caso pelo(s) Legislativo(s), vamos lembrar desta cultura que, de certa forma, permeia a visão de toda a sociedade: a cultura da apropriação dos bens públicos. E o exemplo de produtores que desviam cursos de rios, procurando beneficiar seus empreendimentos em detrimento da maioria da população que necessita ser abastecida é um exemplo clássico.

Por isso, acredito que a solução para estes problemas não deve ser pensada de forma simplista. Mais do que acusar os poderes públicos pelas visões que priorizam o próprio “umbigo”, é preciso que cada um de nós se conscientize que o interesse público deve estar sempre acima dos interesses privados. Somente a partir desta mudança cultural é que poderemos estimular os demais segmentos a dançarem conforme a música que tocarmos, evidentemente, desenvolvendo antes o que falta a muitos de nós: coerência entre discurso e prática.

* SEDUFSM



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