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“Grandes” empreendimentos e o Orçamento Participativo

Por:  Gelson Manzoni de Oliveira*

Os santa-marienses souberam, há algum tempo, que o prefeito, em uma de suas crises de criatividade (falta de, no caso), resolveu erigir um gigantesco monumento em homenagem à padroeira da cidade que alguns, ingenuamente, pensavam que fosse a Cultura. Ao que parece, estamos definitivamente reduzidos à provinciana condição de “cidade do interior”, já que, afinal, nem de cinemas precisamos mais, segundo os empresários do ramo. Isto explica também o descaso das autoridades para com as manifestações verdadeiramente culturais. Para completar o infortúnio, o alcaide municipal resolveu homenagear uma santa católica, com uma estátua de 60 metros de altura, algo tão absurdo quão desnecessário. Pessoalmente, acho uma empreitada difícil. Até julgaria possível, se a população santa-mariense fosse constituída somente por católicos, ou se nossa cidade fosse habitada somente por mentecaptos, ou ainda, se não existissem, absolutamente, cabeças pensantes na cidade.

Como nenhuma das assertivas anteriores é verdadeira, estão, acredito, reduzidas ao mínimo as chances do alcaide de implantar um monumento à ignorância no morro do Cechella, para agradar ao clero e lembrar-nos a todos, diuturnamente, o quanto somos estúpidos e parvos. Sem considerar o aspecto legal da questão tipo: é válido o executivo municipal gastar, ou passar o chapéu, com o fim de erigir obras religiosas? hospitais, creches, não seriam mais necessários?) vai ser difícil o prefeito explicar-se com o seu eleitorado evangélico (leia-se protestantes, para os quais a mãe de Cristo não é mais importante que o filho), umbandista, espírita e budista, para ficar apenas nas básicas locais. A menos que o alcaide tenha assumido também o compromisso de erigir estátuas representativas das divindades daquelas religiões, para contrabalançar os pontos cardeais das correntes religiosas da cidade, embora a tal santa seja igualmente reverenciada pelas religiões cristãs mencionadas.

Semelhante despropósito, digno do mais radical fundamentalismo religioso, esbarra, adicionalmente, em um grave aspecto político-ético: a administração municipal submeteu à população santa-mariense, entre 2001 e 2003, o exame de prioridades para a elaboração de obras, no chamado Orçamento Participativo (OP). O OP foi abandonado desde 2005, devido à falta de recursos, inclusive para concluir algumas das obras aprovadas pela população antes da (apertada) reeleição do devoto prefeito. Não seria o caso de uma obra desta “magnitude” (a construção da tal estátua), que envolve recursos vultosos, e que foi anunciada como epifania pessoal do alcaide, ser submetida ao crivo popular, nos moldes do Orçamento Participativo? Parece que a tendência de nossas “autoridades” de plantão é, na falta de algo mais produtivo, mandar o bom senso às favas e esmerar-se em transformar nossa cidade em um enorme santuário católico, com toda a pompa, bem ao gosto do Vaticano, uma das principais causas, aliás, da conhecida cisão do cristianismo, deflagrada por Lutero.

(Artigo publicado no jornal A Razão de 24 de setembro de 2007)

* UFSM



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