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O flagelo da Biodiversidade

Por:  Wilton Orlando Trapp e Renato Aquino Záchia*

Ao redor dos anos 440 D.C. Átila, Rei dos Hunos, submeteu os Impérios Romano, Bizantino e da Gália aos ataques das suas hordas barulhentas. Conhecido como O Flagelo de Deus, vangloriava-se: A grama não volta a crescer onde pisa meu cavalo. Tempos depois, entre 2005 e 2007 D.C. a história se inverte. Os povos educados e desenvolvidos, comandados pelo Castelo de Windsor, enviam três representantes de suas províncias, para exigir do governo do Rio Grande, bárbaro e atrasado, a entrega do território da Pampa. Neste, pretendem plantar lavouras de eucalipto, e com isto obter papel para as crianças brincarem de aviãozinho nos castelos reais. Os Reis Bárbaros, Germano I e Yeda I, entregam, sem reação, a terra prometida para as Províncias Aracruz, Stora Enso e Votorantim. Ao mesmo tempo, o Império baixa o Decreto das Águas, rascunhado pelos seus representantes do Condado de Santa Maria, que Determina o fim do mito do ‘chupão’ e cria a variedade light, geneticamente modificada, de eucalipto canudinho.

Pois bem, se Átila com suas bravatas representava, à época, a dimensão perversa de sociedade, como poderemos qualificar neste início de século XXI, as hordas silenciosas que nos invadem e se multiplicam? As empresas papeleiras chegaram pisoteando sobre tudo que a nossa imaginação não alcança: usam métodos de cooptação de políticos e governantes, como forma de obter o silêncio e o apoio; estabelecem os rumos da pesquisa nas Universidades, que favorece e legitima seus propósitos; desrespeitam o zoneamento ambiental, descredenciando a FEPAM e impondo ao Ministério Público, mediante acordo com o Secretário do Meio Ambiente, um silêncio constrangedor; com plantios previstos de mais de 1 milhão de hectares, criam um quadro sombrio para a biodiversidade e as policulturas da Metade Sul.

Quando reunimos um grupo de professores e alunos de diferentes campos do conhecimento, e o chamamos de Grupo de Luta Contra os Desertos Verdes, pretendíamos trazer à discussão aquilo que denominamos de monocultura acadêmica, mais preocupada em resolver problemas imediatos demandados pelas empresas privadas, ao invés de voltar-se à realidade social, cultural e ambiental de seu próprio povo. Este, iludido pelo Alto Clero Ecológico acaba ignorando o Baixo Clero Ecológico, aliando-se ao coro que chama estes de “ecochatos” ou “ecoxiitas”, abandonando, na prática, aqueles que seriam seus principais aliados no caminho da sua emancipação. A única esperança que temos é que a sociedade acorde dessa letargia, que através de uma lavagem cerebral, transforma cidadãos em objetos de consumo. Só assim teremos futuro.

(Artigo publicado no jornal A Razão de 15 de outubro de 2007)

* UFSM



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