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Os coletivos

Por:  Luiz Carlos Nascimento da Rosa*

Qualquer criança, minimamente escolarizada, vai nos afirmar que coletivo é a reunião de duas, ou mais, pessoas ou coisas. O coletivo é sempre plural. O coletivo que queremos descrever é singular. Apesar de existir uma pluralidade de coletivos. A bem da verdade, quando o desejamos, nós não chamamos o coletivo desejado. Colocamos perpendicularmente ao corpo o braço e o dedo indicador. Dedo este que possuem somente os seres vivos que têm o tele-encéfalo altamente desenvolvido.

Segundo a regra social que nós, racionais, partilhamos, somente podem andar no interior desse nosso coletivo animais que possuem o tele-encéfalo altamente desenvolvido. Alias, o nosso coletivo é política e filosoficamente correto, pois em seu interior, é admitido transitar somente a raça humana. O coletivo, em questão, vivencia a filosofia da inclusão. Entram e saem de nosso coletivo, com igualdade e liberdade, brancos, amarelos, índios e negros. O coletivo pode ser urbano e rural. No contexto rural, não é seguido muito à risca a regra do tele-encéfalo altamente desenvolvido. Por vezes o coletivo do interior mais parece a arca de Noé. Os animais irracionais, do coletivo do interior, por vezes são utilizados como moedas de troca. Só os seres com tele-encéfalo altamente desenvolvido possui moeda de troca.

No interior do “latão”, urbano ou não, transitam os “naturais”, os “racionais”, muitos “irracionais” e, por vezes, alguns não muito “inteiros”. Quero aqui confessar que o quanto, algumas vezes, é altamente desagradável, fazer a travessia pela urbanidade com quem não está muito “inteiro”.

Para parar o ônibus, quando estamos no seu interior, devemos apertar botõezinhos ou, puxar cordinhas. São múltiplas as cores de nossos coletivos, de seus botõezinhos e cordinhas. Na nossa amada “Santinha” da “Boca do Monte” existe um dia por mês onde os racionais têm direito ao “passe livre”. Em dia de passe livre os racionais aproveitam para dar “banda”. O coletivo, em dia de “passe livre”, democratiza a praça e o centro. Existe muitos, que possuem o tele-encéfalo altamente desenvolvido que possuem ojeriza aos dias de “passe livre”. Para estes, a praça e o centro ficam muito carregados de racionais circulando livremente. Quem não gosta de passe livre adora acumular moeda de troca.

Em nossa cidade têm coletivo que vai para o campus. Carregam em seu interior os Budistas, Kardecistas, Católicos e Ateus materialistas. Lá nas Ciências Naturais têm dois professores, o Robaina e o Edgardo, que são estudiosos de Geologia. Vivem escavando a terra para descobrir e nos comunicar suas preciosidades. Nós, escritores e poetas somos meio parecidos com eles, vivemos escarafunchando na condição humana para explicitar os escombros da alma em nossos textos e versos. Nós andamos de ônibus. Defendemos e admiramos o dia de “passe livre”. Somos apaixonados pela diversidade dos racionais que dão conteúdo e forma ao centro, sua praça e aos coletivos.

(Artigo publicado no jornal A Razão de 03.12.07)

* UFSM



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