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Coisas de gênero II

Por:  Luiz Carlos Nascimento da Rosa*

A música é arte e, entretenimento. Sou leigo no ofício, sou um mísero ouvinte. Mas minha condição de ouvinte, dos apaixonados, não me exclui a possibilidade de analisar as letras produzidas neste campo de manifestações da arte. Como nasci na querência do Rio Grande, uma qualificada música “nativa” me faz bem aos tímpanos. Sou eclético quanto ao gênero, tendo boa qualidade “a gente traça”.

A música, em meu entender, possui uma relação, extremamente estreita com a História. Existe um infinito número de músicas de protestos. O compositor, através da música, expressa suas desconformidades com o sistema. Várias outras, fazem apologia a certas formas de vida. Os artistas manifestam, em suas músicas, suas adesões a uma determinada estrutura social e ao sistema político que lhe dá sustentação.

Um dia no cafezinho de confraternização e descanso, na Universidade, conversávamos sobre este maravilhoso campo das artes. Neste contexto, citei, para minha amiga Regininha, uns versos de uma determinada música tradicionalista. Os versos dizem o seguinte: “A joelha e chora/a joelha e chora/quanto mais eu paço o laço/ muito mais ela me adora”.

Regininha ficou atônita e perplexa com os significados que emergem da análise dessa letra. È tão explícito as significações que não precisa ser um especialista para saber interpreta-las. Não é necessário ser do gênero feminino para sofrer indignação. Homens ou mulheres com um mínimo de senso crítico ficam ruborizados ao ouvir tamanha atrocidade.

Vida em forma de sofrimento e dor emana desta, sofrível, letra de música. Sádica a forma de desejo que a música expressa. Como eu e a Regininha somos educadores, pensamos: paupérrima e nada pedagógica esta poética.

Forma pessoas para pensar que a mulher deve ser submissa e “saco de pancada” e homens com uma visão tacanha e tosca sobre o mundo e as relações amorosas. Jovem, Balzaquiana, Quarentona ou da “melhor idade”, mulheres são companheiras de viagem na estrada, por vezes, longa da vida. Mulheres e homens constroem e partilham os infinitos prazeres e desejos que a travessia da vida possibilita.

Tacitamente, como educadores, não estamos presos a visões filosóficas Iluministas. Agora, porções significativas de igualdade, liberdade e solidariedade não fazem mal a ninguém. Não queremos ser espectadores e conservadores no mundo concreto e universal da História.

Nós, homens e mulheres queremos, com muita colaboração, construir as bases para um futuro cada vez mais humanizado. Patética e bizarra a visão sobre a vida do autor da referida letra. Alma que quer fazer continuar viva a forma tirana e obscurantista que, por vezes, manifestaram-se no passado. Usemos das múltiplas e complexas formas de amar. É bom para alma e para o corpo. Ouçamos Shakespeare: minha bondade é tão ilimitada quanto o mar, e tão profunda como este é o meu amor. Quanto mais te dou, mais tenho, pois ambos são infinitos.

(Artigo publicado no jornal A Razão de 31.12.2007/01.01.2008)

* UFSM



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