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2008: um ano a menos?

Por:  Diorge Alceno Konrad*

A cada ano somos tomados por clichês e previsões: paz, saúde e dinheiro no bolso. Mais do que desejos, precisamos de reflexões. Moralistas e pessimistas para alguns, essencialmente políticas para outros. Que paz podemos ter se milhares morrem nas ruas do Iraque ocupado, se jovens são desviados para a violência urbana e se lutas étnicas e nacionais mostram a face mais perversa de tantos séculos de colonialismo? Ou teremos, finalmente e sem nacionalismos de ocasião, a autodeterminação dos povos? Sim, porque não nos manifestamos quando países são usurpados por potências que promovem a guerra por interesses econômicos, discursando pela paz e por noções questionáveis de democracia.

Que saúde é esta se, mesmo com poucos dos recursos destinados a ela, um imposto que cobrava mais de quem mais tinha movimentação financeira é retirado por interesses eleitorais? Ou veremos, finalmente, e sem discussões hipócritas, a taxação das grandes fortunas? Sim, porque para o assalariado o desconto direto na fonte lhe protagoniza a construção da riqueza do país, sem a contrapartida da repartição, sequer quando morre nas filas dos hospitais públicos ou nem chega até eles.

Que tipo de dinheiro no bolso se não questiono a origem do mesmo, muitas vezes vindo da exploração do trabalho ou de desvios de recursos públicos? Ou assistiremos finalmente o desgaste de ideologias extemporâneas sobre a lógica da mão invisível do mercado? Sim, porque a ditadura do capital financeiro e a submissão empresarial e dos governantes aos seus ditames faz vencer a especulação no lugar da atividade produtiva.

O poeta Mário Quintana dizia, em seus aniversários, que fazia um ano a menos. Traduzia, ao passar da idade e na poesia, a ciência de quem amava a vida. Portanto, perdê-la era coisa dolorida. Sob o ponto de vista da vida, 2008 será um ano a mais só em 31 de dezembro. Se individualismo e consumismo, hipocritamente compensados por doações em campanhas de agasalho e distribuições de presentes em datas festivas, vencerem sobre a igualdade social e econômica, este será mesmo um ano a menos.

(Artigo publicado no jornal Diário de Santa Maria de 8 de janeiro de 2008)

* SEDUFSM



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