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Para onde vai a esquerda?

Por:  Fritz Nunes*

Durante muito tempo, até por volta de meados do início da década de 90, houve um certo consenso de que Lula e o Partido dos Trabalhadores representavam uma alternativa de esquerda para o Brasil. O PT se construiu desde os anos 80 na oposição ao regime militar e numa relação de solidariedade com os movimentos social e sindical, seja ele nacional ou internacional. Depois de três tentativas frustradas de chegar à Presidência da República, o ex-metalúrgico e líder sindical Luis Inácio Lula da Silva finalmente chega ao Palácio do Planalto, em 2002. Entretanto, é inegável, Lula e o PT não são mais ou mesmos. Da confrontação para a moderação, essa foi a escolha.

Para um país cuja história registra muitos momentos de acordos políticos, transições graduais e não violentas, o governo petista vem sendo marcado como uma espécie de frente popular, no qual cabem siglas ao centro e à direita. Em tese, isso não ocasionaria maiores problemas, pois, pela lógica, quem aceita integrar um governo eleito pela oposição esquerdista tende a concordar com posições mais críticas ao establishment. Entretanto, o que se vê, apesar da inegável competência para a estabilização da economia, é bem diferente do que se esperaria de um partido de esquerda no governo. Temas polêmicos arraigados na história do país, como a democratização do campo e também a concentração dos próprios meios de comunicação não foram enfrentados pelo governo Lula. Também não houve questionamentos aos chamados contratos estabelecidos e o país continua cumprindo à risca os acordos internacionais.

Contudo, a decepção de muitos com o PT até não se dá tanto no aspecto da teoria econômica, em que há dúvidas e diversos pontos de vista sobre reais saídas atuais para o modo de produção em que vicejam os países, sejam os capitalistas, liderados pelos Estados Unidos, seja até mesmo pela China. A tristeza maior se deve ao distanciamento do PT daqueles setores que durante muito tempo foram a mola propulsora do crescimento da sigla. Recentemente, em Goiânia, durante o Congresso do Sindicato Nacional Docente (ANDES), um líder camponês relatou fatos quase inacreditáveis em relação ao processo repressivo supostamente comandado pela governadora Ana Julia Carepa (PT), com apoio da mídia local e dos fazendeiros, no qual houve prisões e torturas contra camponeses. Seriam estranhas e duvidáveis atitudes de um governo petista, no entanto, se levarmos em conta as “más companhias” da governadora, que teve em sua campanha recursos doados por madeireiras, torna-se mais compreensível tal situação. Também se torna inteligível a não confrontação do petismo com o sistema financeiro quando se sabe que Aloísio Mercadante (PT), por exemplo, é um dos senadores que mais recebeu recursos em sua campanha oriundos de bancos. E a pregação pelo financiamento público de campanha, aonde é que foi parar? (Voltaremos ao tema)

(Artigo publicado no jornal A Razão de 28 de janeiro de 2008)

* SEDUFSM



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