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Os dilemas da esquerda

Por:  Fritz Nunes*

O dilema da esquerda mundial em assumir-se baseada em pressupostos que sempre fizeram parte do seu ideário ou em refazer-se em termos mais “flexíveis” não se resume ao Brasil, como tratamos no artigo da semana passada (“Para onde vai a esquerda?”). No Chile, por exemplo, a socialista Michele Bachelet e seu governo de “concertación” enfrenta oposição cada vez mais acirrada de setores que outrora sustentaram o Partido Socialista, dentre os quais o Movimento Sindical e o Estudantil. Na Nicarágua, o ‘velho’ sandinista, Daniel Ortega, transita com Hugo Chávez, mas também negocia com a fina flor da elite estadunidense, causando furor interno e sendo acusado de ‘traidor’, levando até mesmo a criação de um Movimento de Renovação Sandinista.

Mesmo em países em que a esquerda optou pela confrontação com a elite, como é o caso da Venezuela e da Bolívia, não se tem clareza sobre a efetividade dessa estratégia. Na Venezuela, apesar das sucessivas vitórias eleitorais, depois do episódio da derrota no plebiscito para nova mudança constitucional, concedendo reeleição ilimitada a Hugo Chávez, diversos setores colocaram as barbas de molho diante do personalismo chavista. Já o caso da Bolívia é ainda mais complexo. Pressionado pelos movimentos sociais e, ao mesmo tempo, pela direita seccionista, Evo Morales teve que se equilibrar no fio da navalha. Se expropriasse empresas na área do petróleo como Petrobras e Repsol, sofreria sanções danosas de organismos internacionais e um conseqüente isolamento. Acabou optando por apenas rever os contratos existentes, o que lhe possibilitou não ficar isolado externamente. No entanto, internamente, sofreu enorme desgaste perante os movimentos sociais que exigiam uma efetiva nacionalização dos hidrocarbonetos, sem se importar com as repercussões deste processo no exterior.

Voltando ao Brasil, o que se percebe da maioria da população não chega a ser uma decepção ideológica, de caráter teórico sobre conceitos de esquerda, com o governo Lula. Muitos dos que hoje deixaram de sair às ruas e levantar a bandeira do PT se desencantaram diante de uma súbita reviravolta ética depois que o partido chegou ao poder. Mais grave ainda é a dificuldade de a militância conseguir reagir aos desmandos cometidos pela cúpula da sigla. Apesar do grande número de participantes no último congresso do PT para escolha da nova direção, os debates que antecederam ao evento não foram empolgantes, e o partido não foi passado a limpo, como se esperava desde os escândalos do mensalão (ou do caixa dois, como queiram). No final das contas, o chamado Campo Majoritário saiu vitorioso, o que demonstra que a lição não foi apreendida e que o PT continua em dívida com a população e com a militância histórica que um dia acreditou que o partido era diferente dos demais. O fim da história não está posto, mas a esquerda petista carece de uma reinvenção.

(Artigo publicado no jornal A Razão do dia 4 de fevereiro de 2008)

* SEDUFSM



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