Artigos

Minority Report e o Racismo no Vestibular

Por:  Diorge Alceno Konrad*

Na ficção científica Minority Report – A Nova Lei, dirigido por Steven Spielberg, a temática central do filme, a partir de um conto do escritor Philip Dick, trata de um dos velhos dilemas da sociedade contemporânea: como combater o crime?

A idéia original, na estória passada em 2054, seria a criação de uma unidade policial chamada Pré-crime, com o poder de enxergar crimes pouco antes deles acontecerem, através de um complexo sistema de segurança que controla a mente das pessoas.

No caso, tal avanço da tecnologia, não impede que um dos agentes policiais, o “mocinho” do filme, seja envolvido em uma trama que o acusa injustamente de ser um potencial criminoso, o suficiente para que todo o “eficiente” sistema seja questionado.

Na vida real, no processo de Vestibular da UFRGS de 2005, dois jovens irmãos, William e Cristian Silveira, saindo de Alvorada em direção à Cidade Baixa, perderam a prova a ser realizada na Escola Estadual Leopolda Barnewitz (nome em homenagem a uma das grandes educadoras porto-alegrenses do século XX), no processo de seleção, no qual buscavam uma vaga em Engenharia Mecânica.

O motivo foi que, atrasados para a realização da prova, ousaram correr para chegar em tempo, antes dos portões serem fechados. No entanto, no meio do caminho foram abordados por policiais militares como suspeitos de atividade criminosa. A alegação do sargento para o ato flagrantemente discriminatório: “Antes de um fato acontecer a gente tem de intervir”.

Que fato? A histórica visão em nosso País de que a cor da pele deve determinar os que são suspeitos para a polícia quando estão correndo? A dedução preconceituosa, mesmo depois de responderem sobre a causa da corredeira, a partir do abuso de autoridade, que praticamente adiou a possibilidade da conquista do curso superior desejado, como mais uma forma de eliminação social dos bancos do ensino superior da parcela majoritária da população, mas que é minoria nas universidades, o que atualiza o debate sobre as cotas?

Que nova noção de lei é esta, a qual nem na ficção funciona, mas que cria uma espécie de robocops, os quais decidem previamente o que é lícito e o que é ilícito, ferindo até os mais simples preceitos constitucionais? Que tipo de convivência social estamos perpetuando, a partir do poder público, quando vítimas são criminalizadas previamente, pois segundo um dos policiais, “naquela região, se estão correndo, a gente pode achar que são pessoas que praticaram um crime ...”? Quem devolverá esse ano de vida aos dois irmãos de Alvorada, nome propício para os que pensam em um novo dia para o nosso País?

A literatura consagrada, em nome da sociologia de Gilberto Freyre e de uma visão integracionista da casa-grande e da senzala, transformou em senso comum a idéia de que temos no Brasil uma democracia racial.

Assim, escamoteiam os mais de trezentos anos de trabalho do negro escravo, cujos esforços e milhares de mortes resultaram no enriquecimento de poucos, aqui e na Europa. Tentam estabelecer um imaginário que esconde o racismo visceral que ainda permeia nossa sociedade e que faz com que a maioria da população afro-descendente deste Brasil ainda tenha os menores salários e as piores condições sócio-econômicas. Ao criar uma História de que o Brasil é o que é, apenas por que vieram imigrantes brancos a partir do século XIX, encobrem que os mesmos vieram em função de acordos entre os governos da Itália, da Alemanha, etc., e do Brasil, a fim de substituírem a mão-de-obra negra e realizar o branqueamento da estereotipada “raça brasileira”. Não ignoremos o árduo trabalho dos imigrantes e seus descendentes, mas nesse caso, a visão de nossas classes dominantes têm contribuído apenas para mascarar a manutenção do preconceito racial, cuja origem deve ser encontrada na Escravidão e que, ainda hoje, mantém várias formas de desigualdades sociais.

Por isto e contra isto, e por muito mais, que vários docentes da UFSM, filiados à SEDUFSM, juntamente com acadêmicos e técnico-administrativos da Instituição, participarão da edição do Fórum Social Mundial 2005, em Porto Alegre, de 26 a 31 de janeiro, convivendo e aprendendo com outros povos. Não só porque outro mundo é possível. Mas porque outro mundo é necessário!!!

* SEDUFSM



Compartilhe com sua rede social!

© 2017 SEDUFSM
Rua André Marques, 665 - Centro, Santa Maria, RS - 97010-041
Website por BM2 Tecnologia em Internet