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O grito das mulheres silenciado na mídia

Por:  Fritz Nunes*

Na semana Internacional da Mulher, comemorado em 8 de março, centenas de mulheres sem-terra, ligadas à Via Campesina, ocuparam a fazenda Tarumã, em Rosário do Sul. O objetivo principal era chamar a atenção para o processo que vem ocorrendo nos bastidores da política gaúcha e brasileira, à margem da lei, em que empresas multinacionais da área de celulose estão adquirindo extensões de terra em áreas de fronteira, cuja prática é proibida. A aquisição de terras estaria sendo feita por espécies de “testas-de-ferro” enquanto não se resolve a questão legal, cuja expectativa das papeleiras é de que a legislação seja modificada.

Por um lado, se a infração à lei não é reprimida, quem se interpõe a esses métodos, sim. É importante destacar que existem projetos tramitando na Câmara e no Senado Federal propondo que a aquisição de terras por estrangeiros, na faixa de fronteira, seja reduzida de 150 km para 50 km. Isso tudo para beneficiar as empresas que plantam eucaliptos e pinus para a produção de celulose. Ocorre que essa não é apenas uma questão legal. Existem sólidas informações de pesquisadores de instituições universitárias diversas do estado, de que as lavoras de eucalipto poderão destruir o bioma pampa e ocasionar os “desertos verdes” devido ao grande consumo de água por esses plantios.

A imprensa gaúcha, contudo, com raras exceções, prefere tecer loas ao empreendimento das papeleiras, que geraria dinheiro, empregos, entre tantos supostos benefícios. Bom, se levar em conta o que essas empresas gastam em anúncios publicitários, parece ser coerente que a mídia as defenda com ardor. O poder econômico é tanto que, em 2007, até a direção da Fundação Estadual de Proteção Ambiental caiu, pois estaria “atrasando” o licenciamento ambiental.

A submissão é tanta que, no episódio da ocupação da Tarumã, e a posterior desocupação, foi tratada de tal forma que as sem-terra, por usarem rostos cobertos e portarem facões e foices (para derrubar as plantações de eucaliptos), foram tratadas pelos “comentaristas” midiáticos como ‘terroristas’. Aí vem uma outra leitura da situação. As camponesas viraram ‘terroristas’, mas, o uso da violência contra elas foi desconsiderado e omitido. Os repórteres presentes ao local foram impedidos de cobrir a desocupação. Pior, com exceção do Sindicato dos Jornalistas do RS, não se viu um editorial sequer em defesa da liberdade de imprensa.

Apesar da censura, as fotos existem às dezenas, registrando o nível da violência contra as mulheres. Entretanto, a chamada “grande imprensa” nada vê. Não se falou sobre as cinco horas em que as sem-terra ficaram dentro dos ônibus, impedidas de se alimentar, de beber água, de serem socorridas em seus ferimentos, além de serem impedidas de recuperar seus documentos apreendidos. Em resumo, como disse uma apoiadora do movimento, durante evento na SEDUFSM: “é inacreditável que alguns pés de eucalipto sejam mais importantes do que a vida de centenas de pessoas”. (* Esse artigo foi escrito a partir da colaboração das mulheres do assentamento Carlos Marighella)

Artigo publicado em A Razão de 17.03.2008

* SEDUFSM



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