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Universidade e Fundações: relação promíscua?

Por:  Wilton Trapp*

Um olhar sobre as condutas humanas no período entre o final dos anos 80 e início dos 90 no interior da Universidade Federal de Santa Maria, nos levaria a concluir por um relativo predomínio no engajamento com a função social da Instituição. Mas essa situação começa a mudar quando, a partir daí inicia, por parte do governo, um crescente processo de desobrigação com a manutenção das Instituições Federais de Ensino Superior, acompanhando as reformas neoliberais sugeridas pelo Banco Mundial para os governos latino-americanos.

Por trás da justificativa da não interrupção das demandas e de possibilitar a expansão da Universidade, surge dentro da Instituição a Fundação de Apoio à Ciência e Tecnologia-FATEC, organização destinada a captar recursos do setor privado, e com isso driblar a burocracia que, de forma premeditada, reduz a capacidade de enfrentamento de situações, muitas vezes de simples resolução. Da mesma forma serve para compensar a deterioração dos salários, remunerando os docentes por fora.

Enquanto mais recursos ingressam via indireta na Instituição, observa-se a supremacia dos negócios sobre a tarefa da Universidade, com a generosa contribuição dos nossos colegas e o silêncio dos Conselhos Superiores. A facilidade com que se avolumaram os negócios acabou por expor a sua face criminosa, e surge a Operação Rodin, que a comunidade do Rio Grande do Sul acompanha com atenção. Passado algum tempo, a Fundação passa a chamar-se FATECIENS e tudo parece voltar ao seu normal. Ocorre que essa pretensa normalidade não nos convence, pois há a necessidade de muito mais esclarecimentos a fazer.

Entendemos como imediata uma ampla e minuciosa exposição de todos os projetos/convênios até hoje intermediados pela FATEC, para elucidar o que segue: a) qual a participação dos entes envolvidos nos desdobramentos dos projetos e nos resultados advindos dos acordos; b) qual o tempo dedicado e as bonificações recebidas pelos docentes no decorrer dos mesmos; c) comenta-se que tem havido defesas de dissertação a portas fechadas; tais sigilos seriam justificados através do financiamento pelo ultramercado contemporâneo?; d) quais os critérios para a construção dos novos prédios no Campus, reconhecidos como miséria paisagística, e em cujo interior só é permitido o acesso com senha?; e) Qual a relevância social de certos projetos intermediados pela Fundação?

A população da região precisa saber que a existência da FATECIENS significa a porta para a corrosão da autonomia acadêmica e a privatização definitiva da Universidade, processo já em curso.

(Artigo publicado no jornal A Razão de 07 de abril de 2008)

* UFSM



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