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Romântico sim, por que não?

Por:  Luiz Carlos Nascimento da Rosa*

Penso que me enquadro no rol daqueles Educadores que não concebem o espaço de sala de aula como um mero lugar de reprodução/transmissão do conhecimento historicamente produzido pela humanidade. Acredito que o conjunto de relações sociais que configuram este lugar é muito rico para ser negligenciado.

A sala de aula é, também, um lócus privilegiado para fazermos investigações e, em conseqüência, produzirmos conhecimentos. Quando bem planejada e bem conduzida, a práxis de sala de aula é capaz de produzir a unidade dialética entre teoria e prática.

Falo isso, lembrando de um episódio que ocorreu em uma das últimas aulas que realizávamos na UFSM, com o Curso de Pedagogia, no segundo semestre de 2007. Éramos cinco professores coordenando o trabalho com duas turmas. Constava no planejamento, previamente acordado, que as alunas fariam observações e intervenções em diferentes escolas de Ensino Fundamental de Santa Maria. Estávamos interessadíssimos em refletirmos sobre as práticas.

Para todos nós, foi uma experiência ímpar. Algo que se repetiu deixou-me perplexo. Com o entusiasmo característico de quem relata suas intervenções nos espaços de sala de aula, uma aluna pediu desculpas três vezes por ter sido romântica em sua análise. Primeira questão que me ocorreu: é crime ser romântico? Segunda questão: na Academia é proibido ser romântico? Terceira: a natureza do trabalho do professor é um obstáculo ao romantismo? Possuir um olhar aguçado para o mundo e um pensamento crítico sobre a vida, não cabe em um ser humano romântico? Poderíamos construir uma fila imensa de questionamentos desta natureza, pois o fato gerado se presta muito bem para profundas reflexões. Para o momento me basta.

Não é brega ser romântico. No momento em que o professor perde o encanto por suas práticas de sala de aula e destrói o romantismo que existe em sua “alma”, evidencia-se um triste sinal de sua bancarrota como profissional e, porque não dizer, como ser humano.

Nós deveríamos ter vergonha de nossos individualismos. Nossas vidas cotidianas são, muitas vezes, vividas e balizadas por razões, infelizmente, pragmáticas. Optamos, escolhemos e fazemos aquilo que nos é útil. A utilidade das coisas são nossos critérios de verdade. Nos pragmáticos, ai sim, não existe nenhum espacinho para o romantismo. A alma pragmática aborta as asas da liberdade, criatividade, sensibilidade e a afetividade que dão conteúdo e vida à condição humana. O grande filósofo Georg Lukács afirmava que a alma é mais larga e mais vasta do que todos os destinos que a vida pode lhe oferecer.

Existe o romântico que possui uma visão idílica do passado. Existe, também, o romântico utópico. Sonha e luta no presente por uma vida melhor no futuro. Não tenhamos vergonha de nossos romantismos. Alimentemos nossas utopias.

(Artigo publicado no jornal A Razão de 14.04.2008)

* UFSM



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