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“Não em nossos genes”

Por:  Luiz Carlos Nascimento da Rosa*

Leonardo Da Vinci, um dos maiores pensadores do Renascimento, foi enfático ao afirmar: todo conhecimento provém da experiência. Somente uma análise histórica de seu contexto é que poderemos entender esta sua expressão. Da Vinci se insurge contra as visões Teológico-Metafísicas, que eram hegemônicas, sobre o Conhecimento produzido nos diferentes campos do saber. Sua concepção filosófica vai se instituir como uma forma de se contrapor à Ideologia obscurantista do período Medieval, fortemente carregada pelo cristianismo, a ferro e a fogo, defendido pela Igreja Católica. Tempo de caça às “bruxas”, onde não era possível exercitar o livre pensamento. Galileu teve que, para a Santa Inquisição, negar o “Heliocentrismo” que desenvolveu para, como Giordano Bruno, não ser queimado vivo.

Estas passagens nefastas da História da Ciência vieram em minha mente através do debate público que está ocorrendo no RS, com a elaboração de um Projeto de Pesquisa (UFRGS e PUC) sobre a problemática da violência, no contexto de menores infratores. A hipótese de trabalho, para a delinqüência, destes grupos de pesquisa é que a violência deve ou poderia possuir uma explicação biológica. É no mundo complexo do Genoma que estaria a explicação para a vivência e a produção social da barbárie destes grupos de menores infratores.

A questão que devemos colocar é: para além dos geneticistas, as demais comunidades de profissionais, que trabalham e pesquisam sobre as diferentes esferas do comportamento humano, concordam com esta hipótese de trabalho? O ser humano e seu complexo, maravilhoso e singular mundo histórico-cultural, podem ser reduzidos e definidos à esfera, meramente, biológica?

Albert Einstein morreu não aceitando que poderiam existir Leis específicas para o Universo macroscópico e para o mundo microscópico, no horizonte que circunscrevem os fenômenos da Ciência Física. Diferentemente dos estudiosos da Mecânica Quântica(Ciência que trata do mundo atômico ou microscópico), Einstein acreditava na existência de uma Lei Geral e simples que fosse capaz de explicar os dois universos. Alguns geneticistas caminham na esteira do pensamento de Einstein. Apostam, através de suas hipóteses de trabalho, em uma lei geral e simples para a explicação da natureza e o comportamento do ser humano. A ideologia cientificista desses geneticistas quer fazer com que acreditemos que somos, socialmente, um mero reflexo de nosso mapeamento genético.

A discussão científica não pode ser estabelecida, socialmente, de forma absoluta. A maravilhosa História da Ciência vêm nos demonstrando que suas “verdades” são provisórias e dependem do desenvolvimento de nossas capacidades tecnológicas e intelectuais. Jacques Monod, um dos grandes da Genética, dizia que, para a felicidade da Ciência, o ser humano está sozinho num universo repleto de solidão. Respeitemos suas hipóteses de trabalho. Façamos um esforço para provarmos que a condição e a natureza do humano são, também, fortemente instituídas por sua experiência social, cultural e histórica.

(Artigo publicado no jornal A Razão em 12 de maio de 2008)

* UFSM



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