Artigos

Paradoxos e perplexidades

Por:  Luiz Carlos Nascimento da Rosa*

Pousar nosso olhar sobre os múltiplos espaços da vida é algo de extraordinário e, ao mesmo tempo, estranho. É extraordinário pelo fato de estarmos observando nossa dinâmica de relações com os demais seres humanos e o mundo natural que circunscreve nossas vidas. É estranho porque somos, ao mesmo tempo, atores e espectadores.

Há um elemento triste e trágico nesse processo. A maioria do “cidadão comum”, não possui tempo de pensar na e sobre a vida. As agruras do mundo capitalista consomem as pessoas em sua busca desenfreada em suprir suas necessidades básicas. Os seres humanos precisam “ganhar a vida”. O maior pensador do século XIX, o desprezado e esquecido Karl Marx, já dizia que as circunstâncias fazem o ser humano e, ao mesmo tempo, o ser humano constrói as suas circunstâncias.

Neste contexto posso afirmar que a vida cotidiana, tanto pensada como vivida, ela contém um caráter dual. É uma esfera da existência humana que se presta maravilhosamente bem para a reprodução de valores, anseios e desejos. Ao mesmo tempo a cotidianidade é um rico lugar para processar mudanças nas formas do existir. Só seremos capazes de transformar o modus operandis de nosso agir no mundo através de nossa prática.

Estas reflexões vieram em minha mente quando estava tentando achar algumas expressões que fossem demarcadoras, explicativas e, enquanto produto real da vida, instrumentos de transformações deste modus vivendis. Surgiram-me algumas questões que orientaram o pouso de meu olhar em busca dos limites e as possibilidades de algumas saídas dignas para a maioria das formas de vida, quais sejam: por que a maioria dos seres humanos vive sob a tutela dos interesses dos outros? Quais as causas que provocam uma “anestesia” coletiva e, homens e mulheres não se indignam com a vida que estão levando?

De forma simples seria capaz de dizer que os grandes paradoxos da vida ficam escamoteados pelos interesses da ideologia consumista de uma sociedade capitalista. O ser humano, em suas práticas sociais, em vez de se revoltar pelo fato de não possuir as condições econômicas para comprar e obter aquilo que deseja, ele sonha em ser aquele sujeito que pode e que consome, e possui necessidades elevadas. Come bem, mora bem, vai ao cinema, vai ao teatro, ou seja, suas necessidades são educacionais, literárias e culturais. Desvelar, explicar e romper com estes paradoxos seria um bom ponto de partida para se buscar o mais e o melhor (no sentido do ser humano).

Perplexidades! Paulo Freire, o maior Educador brasileiro, foi incansável em repetir: o ser humano jamais pode perder a sua capacidade de ficar perplexo diante das coisas da vida. Ficar perplexo diante dos grandes paradoxos que oprimem nossas vidas é um bom início para transformá-la.

(Artigo publicado no jornal A Razão do dia 04 de agosto de 2008)

* UFSM



Compartilhe com sua rede social!

© 2017 SEDUFSM
Rua André Marques, 665 - Centro, Santa Maria, RS - 97010-041
Website por BM2 Tecnologia em Internet