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A questão ortográfica

Por:  Délcio Barros da Silva*

Ao se discutir qualquer mudança na ortografia, é importante destacar que não há uma representação unívoca entre fala e escrita devido, em parte à etimologia, à origem da palavra. Por isso, escrevemos honesto (do latim honestus), com h inicial por mera tradição. Já o italiano deu na cachola de escrever onesto (que não é mafioso), sem o sinal etimológico. Em razão desse conservadorismo, em Portugal, algumas palavras ainda mantêm a grafia dos tempos de Caminha, quando tentou adoptar uma indiazinha, no primeiro caso de pedofilia (amor à criança) no Brasil.

Outro problema nosso é a acentuação gráfica, dificuldade que não se encontra em muitas línguas modernas. Não há acento gráfico no inglês, nem no alemão, que só usa o trema para marcar na escrita o fenômeno de metafonia que chamam de Umlaut. Esse trema meio germânico está sendo deportado da nossa escrita no atual acordo de unificação ortográfica em curso, talvez por uma delinquência qualquer ou por turismo sexual, denunciado por algum alcaguete (alcagüete).

Também está condenada aquela turma viciada em acento diferencial: côa, pólo, pôlo, péra, pêra, pára, entre outras, por formação de quadrilha. Até aqueles inocentes grampinho da vovó e chapeuzinho do vovô estão proibidos em péla (v. pelar) e pêlo (que pode ser pubiano), nestes por atentado ao pudor! Além do antigo paraquedas (pára-quedas) com hífen e acento, Santos Dummont vai perder o chapéu no voo (vôo) e no enjoo (enjôo), para o desdeem (desdêem) de muitos puristas. Aquele acento no u tônico depois de ditongo também vai para o espaço, pois nem o Senador Quintino, na sua eloqüência, diria diferentemente Bocaiuva (Bocaiúva) com ou sem acento! A melhor notícia, talvez, refere-se a palavras como hemorroidas e diarreia, sem aquele acento agudo no ditongo alfinetando o dito-cujo.

Por fim, o problema do hífen, que vai continuar complicando a vida do pessoal que faz concursos. Como estou aposentado, vou pular essa parte, lembrando que, no inglês, o uso desse tracinho não tem regra fixa: pode-se grafar headmaster, head master ou head-master, como preferir o diretor da escola.

Numa avaliação superficial, o acordo vai facilitar às professoras aquele trabalho galináceo de esgaravatar o texto dos alunos à procura desses acentinhos. Em suma: para dominar a ortografia há necessidade, antes de tudo, de se conviver com a palavra escrita, estabelecendo com ela uma certa familiaridade, de preferência com o assento nos bancos escolares.

(Artigo publicado no jornal A Razão do dia 15 de setembro de 2008)

* UFSM



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