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Lição de um escravo branco

Por:  Rondon de Castro*

Há quase 150 anos, os cidadãos que passavam pela Praça do Comércio, no Rio de Janeiro, uma cena deixou os cidadãos estupefatos. Foi até noticiado no Jornal do Commércio só o título “Escravo Branco”: “Apresentou-se ontem na Praça do Comércio um homem branco, de olhos azuis e cabelos louros, de 25 a 26 anos, que jaz em cativeiro e pedia uma subscrição para comprar sua liberdade. As pessoas presentes mal podiam acreditar que esse homem fosse escravo.”

Na época, o único critério visível para definir um escravo eram suas características físicas. Logo, qualquer um com traços negróides, estaria fadado ao cativeiro. E esse não era o caso. O que se via era um homem branco! Legalmente, ser escravo no Brasil império não significava apenas ser negro, mas ter ascendência negra. No caso descrito no Jornal do Commércio: a surpresa causada por um indivíduo branco confrontava-se com as leis que indicava que o filho de escrava seria naturalmente cativo. Um branco não poderia ser escravo, já que não apresentava características físicas para tal. Evidentemente, esse fato resgatado na história nos faz lembrar de outro caso, ocorrido há tempos, na Universidade de Brasília (UnB), quando se quis fotografar os candidatos à cota para comprovação racial. Ou então, da estudante excluída recentemente da UFSM.

Esbarramos nesse trôpego sistema de cotas num complicado problema a ser resolvido: quais são os critérios que tornam um indivíduo apto a essas cotas. Em teoria, se oficializa o “sou desigual entre os iguais”, uma vez que se criam justificativas segregacionistas para um grupo específico étnico. Mas como é certa a futura desproporção entre candidatos e vagas e destinadas à cota, estamos fadados a procurar mais razões oficiais para a exclusão dentro do próprio grupo beneficiado. Continuaremos procurar diferenças para distingui-los entre os iguais.

Apesar das feridas, o caminho para a integração não são atalhos legais – por mais justificadas que sejam – que garantam cotas nas universidades. E sim, o longo caminho que nos leve a uma sociedade justa. Caso contrário, repetiremos nos dias de hoje a estupefação sentida no século XIX diante de um escravo branco.

* UFSM



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