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O futebol da Era Dunga

Por:  Sérgio Carvalho*

Chegada a Copa da África do Sul, o som do evento esportivo do futebol mundial, quer nos campos quer nos meios de comunicação, amplifica-se. Nem tanto pelos resultados e pouco menos pelos atores/jogadores e mais pelos patrocinadores e pelo ufanismo desmesurado dos seus divulgadores e das cadeias televisivas ou radiofônicas que representam. É chegada a hora de o Brasil calçar as chuteiras e bem representar o “povo sofrido”, devolvendo-lhe a “alegria de viver” com mais um título de campeão, ainda que pelo prazo de trinta dias.

Locutores, comentaristas, repórteres, cinegrafistas, operadores de áudio e todos os demais profissionais envolvidos se esforçam para captar os mínimos detalhes que podem fazer a diferença entre um time campeão e um time que apenas irá representar o país. A partir de agora, não basta bem representar, tem de ser campeão.

Dunga, ou será o Zangado no entendimento dos jornalistas (?), busca com o seu comprometimento e amor à Pátria recuperar o ele perdido em 2006, onde talento, conta bancária e nome não foram suficientes para ganhar o título. Natural que haja em 2010 um simplismo na defesa dos conceitos utilizados pelo treinador. O carteiraço, tão comum no Brasil, não deu certo numa Copa do Mundo.

Também não seria de esperar filosofias rebuscadas entre jogadores de futebol. Independentemente de se gostar ou não dele, o que o distingue dos demais é o avesso do avesso. Assim, treinador e time merecem respeito e torcida. Como coerência no futebol brasileiro é o que menos se quer, o planejamento de médio e longo prazos aprovado e vencedor da comissão técnica pouco vale. Mas esse é o futebol brasileiro. Para uns, deve ser bonito, leve, pra frente e vencedor. Nesse caso precisa se combinar com os adversários.

Todos sabem que, em uma competição mundial, ganha quem erra menos, treina mais e é frio e calculista. Ponto. Se ganhar de outra forma, melhor. Essas são as regras do jogo. Goste-se ou não. Exemplo vivo é a mão salvadora do Thierry Henry, pois sem ela a França nem estaria na África.Torço pelo Dunga e pela seleção como torcedor e pelo prazer de desmitificar os senhores da bola e da mídia.

Sei que temos milhões de treinadores de futebol no país e outros tantos que fazem deste esporte sua fonte de renda, mas “nunca antes na história desse país” um treinador que venceu absolutamente tudo o que disputou até chegar à copa, foi tão massacrado. Chegou-se a eleger o seu figurino pessoal e suas entrevistas enfadonhas como fator de desagregação e arrogância. A imbecilidade das perguntas, que permearam suas coletivas, não foi considerada. Nenhum deus da mídia buscou o planejamento profissional técnico e tático feito para a seleção para as competições que disputou. A obtenção dos resultados foi aceita parcialmente. Compreensível, já que parte da mídia e seus “deuses” se nutrem direta ou indiretamente dos patrocinadores.

Não sei se o Brasil ganhará mais um título mundial, e lamento profundamente que isto possa ocorrer, pois enquanto o esporte profissional, em especial o futebol, não for encarado como profissão, muito pouco se terá a fazer, a não ser atender os desejos espúrios de grandes grupos empresariais e a ganância de dirigentes amadores corruptos.

(Publicado em A Razão de 16.06.2010)

* UFSM



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