Artigos

ENEM reprovado

Por:  Délcio Barros da Silva*

Do ponto de vista epistemológico, o Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM – representaria um avanço em relação ao vestibular tradicional como tentativa de avaliar a capacidade de raciocínio e a competência dos candidatos em vez da memorização e do desempenho. Nesse aspecto, o ENEM poderia se transformar num excelente instrumento de diagnóstico do Ensino Médio, o que permitiria fornecer subsídios para as mudanças necessárias visando à melhoria da qualidade de ensino (aprendizagem).

Mas, empregado como processo seletivo-classificatório, parcial ou total, o ENEM repete os mesmos problemas do vestibular tradicional: tornou-se ‘conteudístico’, estressante, competitivo. E ainda há algo muito mais grave nisso: tem pecado pela falta de confiabilidade das provas. Além da quebra de sigilo, inclusive do tema da redação, e dos problemas de gabarito, as provas do ENEM tem apresentado erros estruturais e de conteúdo, que afetam a fidedignidade desses instrumentos de seleção.

Como dizia Bucheweitz, uma prova fidedigna é uma prova precisa, praticamente sem erros. Portanto não devem apresentar enunciados duvidosos, instruções inadequadas, erros de impressão e de grafia de palavras, enunciados muito longos, etc. A intervenção de fiscais para passar instruções na hora das provas já se constitui numa irregularidade, pelo transtorno que geram. Até o próprio tempo gasto na solução (decifração) das questões e o pouco espaço reservado aos cálculos também podem afetar a fidedignidade de uma prova.

Num país como o nosso, de dimensões continentais, as diferenças de aspectos regionais ou culturais até de clima e fuso horário, podem, eventualmente, influir na fidedignidade das provas. Calor excessivo em determinado local, palavras desconhecidas, nomenclatura pouco empregada ou diferente (no ensino de línguas, por exemplo), bem como outros problemas relativos à variabilidade dos examinandos. É claro que, quanto maior for a área de abrangência das provas, muito mais problemas desse tipo poderão surgir.

As universidades que resolveram adotar as provas do ENEM, de maneira parcial ou total, nos seus processos seletivos, tomaram uma decisão “politicamente correta”. Afinal, o Exame é de responsabilidade da esfera federal. Mas, no que diz respeito aos fins a que se propõe, o vestibular realizado pelas instituições de ensino superior que detêm know-how desenvolvido há décadas de trabalho, apresenta-se como adequado a esse modelo de ingresso. Nesse aspecto, o ENEM seria perfeitamente dispensável.

(Publicado em A Razão de 02.12.2010)

* UFSM



Compartilhe com sua rede social!

© 2017 SEDUFSM
Rua André Marques, 665 - Centro, Santa Maria, RS - 97010-041
Website por BM2 Tecnologia em Internet