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Público e Privado

Por:  Francisco Estigarribia de Freitas*

Desde a semana passada as redes de televisão e jornais têm inundado as casas das pessoas com imagens sobre a ocupação militar dos morros do Rio de Janeiro. A espetaculosidade e a dramatização têm sido o tom das reportagens que colocam essa ação como o bem contra o mal. Isso é muito estranho porque se a invasão é efetivamente algo do bem o que dizer das vidas que foram ceifadas? Ah, mas eram traficantes que também ceifam vidas. Sendo assim, estamos diante da naturalização da violência.

Parece que estamos diante da naturalização de soluções truculentas a serem saudadas como instrumento de paz diante de uma violência instalada. Mais que isso, estamos diante da queda da última barreira da resistência, abdicando da busca pela coerência intelectual, na medida em que ignoramos que o processo da vida é possível porque não sucumbe ao constante desejo de recomeçar e, para isso, não abre mão do aprendizado já incorporado de uma maneira ou de outra. No caso, nós, brasileiros, já vivenciamos a truculência das armas como sinônimo de paz, democracia e desenvolvimento econômico e, até mesmo, ouvimos sentenças como: “farei deste país uma democracia, nem que para isso tenha que prender e arrebentar”

Pudera, nosso tão badalado sistema de ensino brasileiro tem se perdido na troca de constantes soluções por outras que já vêm prontas, cabendo aos docentes, técnico-administrativos e estudantes apenas acatá-las. Já não faz parte do interior dos estabelecimentos de ensino reconverter nossa ação de memória, isto é, perceber na soma viva das experiências durante nossas vidas, a possibilidade de se organizar, se formar reciprocamente, lutar entre si, se simplificar, se remodificar, de se multiplicar em inúmeros espaços, mas sem sufocar sentimentos, interesses ou repulsas.

Por essa incompreensão conceitual e por não resistir a toda ação vinda do exterior às Instituições de Ensino Superior é que não se pensa mais na virtude de resistir a todo valor exterior e coercitivo. Assim, a atual administração da UFSM gesta a instituição com o discurso de defesa da coisa pública, mas atua com mente e coração contaminados pelo produtivismo do setor privado, como se a educação pudesse ser comprada em qualquer balcão de mercado. Um bom exemplo: a proposta de Resolução à Progressão Funcional.

(Publicado no Diário de Santa Maria em 13.12.2010)

* UFSM



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