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Sucessão Democrática

Por:  Nilton Bertoldo*

Em tempos idos, dizia-se ao cidadão: “você era súdito do rei X, agora o rei X morreu e olhe! Você é súdito do rei Y. Então chegou a democracia e o indivíduo pela primeira vez se defrontava com uma escolha: vocês (coletivamente) querem ser governados pelo cidadão X ou pelo cidadão Y?

A pessoa se vê sempre confrontada com o fato consumado: no primeiro caso com o fato de sua sujeição; no segundo, com o fato da escolha. A forma da escolha não está aberta à discussão. A cédula de votação ou a urna eletrônica não dizem: “Você quer X ou Y, ou nenhum dos dois?” Certamente jamais dirá: “Você quer X ou Y, ou ninguém?”

O cidadão que expressa sua inconformidade com a forma de escolha através dos únicos meios que lhe restam – não votar, anular o voto ou votar em branco – simplesmente não é contado, quer dizer, é descartado, ignorado.

Diante da escolha entre X e Y, dados os tipos de X e Y que chegam à votação, a maioria das pessoas comuns, tende, em seu íntimo, a não escolher nenhum. Mas isso é só uma tendência, e o Estado não lida com tendências, pois estas não integram a moeda corrente da política. O Estado lida é com escolhas. O cidadão comum gostaria de dizer: “Alguns dias eu tendo para X, outros dias para Y, a maior parte dos dias eu sinto simplesmente que eles deveriam desaparecer”; ou então, “Um pouco X, um pouco Y às vezes”, e outras vezes nem X nem Y, mas alguma coisa bem diferente. O Estado balança a cabeça.” Você tem de escolher”, diz o Estado: “X ou Y.”

Disseminar a democracia, como vem sendo feito pelos Estados Unidos no Oriente Médio, quer dizer espalhar as regras da democracia. Isto é, falar às pessoas que, onde antes não tinham escolha, agora elas têm. Antes tinham X e nada além de X; agora têm de decidir entre X e Y. Disseminar a democracia significa criar a condição para os cidadãos escolherem livremente entre X e Y. A disseminação da liberdade e da democracia andam de mãos dadas.

Os sujeitos engajados em espalhar liberdade e democracia não veem nenhuma ironia na descrição desse processo.

Durante a Guerra Fria (Estados Unidos x União Soviética), a explicação dada pelos Estados democráticos ocidentais para banir seus partidos comunistas era que um partido cujo objetivo declarado é a destruição do processo democrático, não pode ter permissão para participar dele, definido como a escolha entre X e Y.

Por que é tão difícil falar algo sobre política fora da política? Por que não pode haver discurso sobre a política que não seja ele próprio político? Para Aristóteles, a resposta é que a política está entranhada na natureza humana, isto é, parte de nosso destino, como a monarquia é o destino das abelhas. Lutar por um discurso sistemático, suprapolítico sobre política é simplesmente inútil.

(Publicado em A Razão de 26.01.2011)

* UFSM



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