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Cínicas mentiras

Por:  Rondon de Castro*

Soa cínica e mentirosa a argumentação dos articuladores da MP 520 que o atendimento médico melhorará com a privatização dos hospitais universitários. Cínica porque jogam nos poucos maus servidores (sejam eles técnico-administrativos e docentes) a responsabilidade do péssimo atendimento.

A mídia se baseia nessa argumentação frágil, quando na verdade, o que acontece é a contínua deterioração das condições de trabalho de um hospital-escola, transformado em pronto-socorro (pela inércia dos governos federais, estaduais e municipais) e mantidos por dotações de recursos aquém de suas necessidades. Soma-se a isso o achatamento salarial, que afastou muitos dos profissionais e abriu a possibilidade de contratações via fundações (cujas as irregularidades nortearam a ação do TCU e do Ministério Público).

Na prática, entre 25 e 26 mil profissionais terceirizados irão para a rua em poucos dias. O governo é responsável pelo caos. Isso é certo porque o modelo privado é alimentado pela discriminação econômica, por aqueles que têm dinheiro em detrimento daqueles que não têm. O cinismo está também na idéia que a privatização é a arma contra o mau funcionário, que temerá o desemprego. Não, os objetivos do capital privado são diferentes do serviço público, justamente pela questão do lucro e de ganhos sobre o trabalho efetuado. A corrupção tem mais facilidade de se adaptar ao novo sistema que o bom servidor, logo, este será submetido, uma vez que o governo se mostrou inepto para combater o mau, preferindo atingir os bons. Os maus existem pelos interesses políticos e não pela natureza do serviço público.

Deixemos claro: o atendimento à população é precário por que houve omissão do executivo. Os governos deixaram os hospitais públicos à deriva e agora buscam desculpas não para a remissão de seus pecados, mas para encontrar culpados entre aqueles que mais sofreram com o descaso governamental. É mentiroso quando afirma que a intenção da privatização é beneficiar a população: a intenção é mesquinha, apenas de tirar das contas do governo (que não administra decentemente uma das maiores cargas tributárias do mundo) sua responsabilidade com a saúde da população. É isso, e nada mais.

(Publicado no Diário de Santa Maria de 18.02.2011)

* UFSM



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