Artigos

Evolução histórica do pensamento médico

Por:  Nilton Bertoldo*

Cada estado de coisas em dado momento representa, na realidade, mera fase do desenvolvimento, por mais que pareça conciso, estático ou rigidamente limitada. Cada um dos fios que constituem a trama de nossos conhecimentos vem de origens diversas e longínquas e se liga a fios de outras tramas. Ninguém poderá compreender o presente, exata e profundamente, e olhar inteligentemente para o futuro se ignorar os frutos do conhecimento, ou não for capaz de perlustrar as sendas pelas quais chegou até nós o conhecimento da verdade.

Ninguém melhor do que o médico conhece a importância desta lei em relação à organização biológica do indivíduo e ninguém sabe, melhor que ele, a importância da história do sujeito e da matéria viva, sem a qual não é possível compreender corretamente as funções dos órgãos ou sua estrutura interna. Ora, aquilo que é verdade para a organização do indivíduo biológico aplica-se, do mesmo modo, àquele organismo solidamente construído que representa a soma de nossos conhecimentos científicos. As minudências deste saber entrelaçam-se e ultrapassam-se como ramos de uma árvore vigorosa que todos tiram, entretanto, sua seiva das mesmas raízes profundas. Aquele que segue a história do pensamento médico em suas várias divisões, não encontrará, como foi asseverado inadvertidamente muitas vezes, o progresso contínuo, em uma linha de ascensão constante.

Este pensamento, entremeado de estranhos cruzamentos e espirais maravilhosas, progride do demonismo dos antigos até as curas atuais por sugestão da organoterapia bíblica às doutrinas endócrinas contemporâneas, da patologia humoral de Hipócrates à avançada imunologia.

Muitas vezes, as idéias de precursores audaciosos e geniais parecem esquecidas; erros antigos que pareciam definitivamente sepultados voltam à tona; descobertas que traziam em si prenúncios de êxito rápido encontraram a mais feroz oposição.

Seguir o fio do pensamento médico na completa e esplendorosa tessitura da sua história, tão antiga como a da própria humanidade, examinar na sua essência as relações do homem e de seus padecimentos no decorrer dos séculos, meditar sobre o modo pelo qual elas variam, tanto na sua essência como na maneira pela qual a individualidade do médico reage sobre elas – tal é a magnânima tarefa que se apresenta ao historiador médico.

A documentação de uma tarefa tão difícil e complexa, assim como sua execução,não pode ser obtida sem a pesquisa aprofundada e extensa dos textos antigos e o estudo do passado à luz da crítica histórica.

(Publicado em A Razão de 17.03.2011)

* UFSM



Compartilhe com sua rede social!

© 2017 SEDUFSM
Rua André Marques, 665 - Centro, Santa Maria, RS - 97010-041
Website por BM2 Tecnologia em Internet