Artigos

A Medicina e a história das ideias

Por:  Nilton Bertoldo*

A origem do pensamento e sua meta são os mesmos; a trama que existe na história é contínua e sugere que nada surge e desaparece repentinamente e sem razão. Cometeu-se o erro, na história da literatura e das artes, erro repetido durante muitos séculos, de querer fazer surgir a floração maravilhosa de uma alta cultura em solo deserto, como a dos faraós no Egito, a da idade de Péricles na Grécia, e a da Renascença na Itália. Se bem que impugnado pela crítica histórica, este erro mantem-se vivo na medicina, pois médicos cultos dizem frequentemente que a história da medicina só começou há poucos séculos.

A pesquisa histórica, recentemente, mostrou que se podia considerar a história das demaisciências, uma lenta, mas contínua acumulação de conhecimentos e de fatos, muitos dos quais são esquecidos durante séculos e, então, surgem de novo à luz meridiana. Até o século XVIII, dizia-se ainda que a escola hipocrática podia ser considerada como produto puramente grego a florescer na idade de ouro da Grécia; sabe-se agora que é mais correto filiar as origens desta escola a influências da Babilônia, da Assíria e da Itália e, mesmo, do antigo Egito.

Hoje é evidente que os primeiros conhecimentos médicos dos gregos, considerados há algumas décadas ainda, pelos historiadores, como uma primeira expressão incerta e uma tentativa infantil da medicina, representa na realidade resultados obtidos dos conhecimentos fundamentais de antigas civilizações e, por sua vez, derivados de fenômenos que ocorreram milhares de anos antes, no período pré-histórico. Uma teia delicada, então, corre através da história da medicina, desde o pensamento dos nossos mais antigos antepassados até o momento atual – pensamento que apresenta ciclos verdadeiramente interessantes. Sabe-se, por exemplo, só para citar um caso eloquente entre muitos que, durante o primeiro grande período da civilização, a medicina foi peculiarmente mediterrânea, cultivada quase exclusivamente nos países banhados por esse mar.

A tradição dos Vedas, proveniente da Índia sagrada, os tijolos de Nínive, os papiros do Egito, as tradições da Bíblia e a luz brilhante das Ilhas Egeas e da Magna Grécia, tudo isso provém do litoral mediterrâneo.

Daí, também, são os produtos da civilização greco-romana, seguida por sua vez pelos árabes e, novamente, pela grande época do Renascimento italiano. Do mesmo modo que este renovava a arte clássica, suas tradições helenísticas e filosóficas, pelo seu retorno à Grécia por intermédio dos árabes e pelas magníficas experiências de Galileu, do mesmo modo a medicina ocidental descobria sua nobre herança vinda da Grécia antiga.

Deste modo revela-se a ligação estreita entre a obra e o pensamento dos mais distantes mestres e seus descendentes. Assim, a orientação do pensamento no campo da medicina, como em outros campos da ciência e da arte, está ligada intimamente à terra de onde partiu, ao cenário meio e ao espírito dos povos.

(Publicado em A razão de 01.04.2011)

* UFSM



Compartilhe com sua rede social!

© 2017 SEDUFSM
Rua André Marques, 665 - Centro, Santa Maria, RS - 97010-041
Website por BM2 Tecnologia em Internet