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A Medicina e a história dos fatos

Por:  Nilton Bertoldo*

Se já foi acentuada a importância da história da medicina como estudo da história das idéias, não é menos necessário reconhecer a importância da história dos fatos, examinados de acordo com sua natureza característica e essencial. A experiência dos últimos anos demonstrou que as modificações patológicas da constituição individual ou coletiva não dependem somente da época e do meio ambiente, mas que, também, certas doenças têm características diferentes em épocas e circunstâncias diferentes.

Todos os que estudam, por exemplo, a história das grandes epidemias notarão que suas características mudaram nas diversas épocas e que tal mudança não é devida inteiramente às medidas de mudanças tomadas. Os resultados obtidos pelas medidas higiênicas e legislação sanitárias modernas, pelo auxílio do governo e pelas leis profiláticas, oferecem um dos problemas mais interessantes para o historiador ou o higienista. Se refletirmos na valiosa legislação sanitária dos tempos antigos, devemos reconhecer que seu esquecimento em épocas posteriores causou enorme perda de vidas, que podia ter sido evitada. Se levarmos em conta o modo como Fracastorios esclareceu o contágio de tuberculose no século XVI, devemos admitir que a humanidade de hoje sofreria muito menos dessa terrível doença se a semente plantada naquela ocasião tivesse germinado. Poder-se ia dar centenas de exemplos tirados da história da medicina para mostrar como é importante anotar e compreender os fatos do passado para iluminar os problemas do presente.

Isso foi tão bem compreendido por eminentes historiadores que eles deram, não sem razão, o nome de patologia histórica a este capítulo da medicina. E, certo que no momento atual, quando as alterações patológicas do indivíduo estão sendo estudadas com tal fervor científico, esta idéia é digna de atenção.

A legislação social dos últimos anos, que marca um grande progresso no domínio da medicina preventiva, leva o sinete do pensamento médico que o inspirou. O reconhecimento das relações existentes entre a patologia e as condições econômicas e sociais, a luta contra as doenças profissionais, todas as grandes organizações das atividades sanitárias, o estudo da conexão entre as afeções psíquicas e a criminalidade, a justa avaliação das estatísticas de saúde e a proteção à maternidade e a infância- tudo isso marcou passos decisivos na atuação do pensamento médico sobre a legislação social.

Aqui mesmo, na nossa época, está emergindo este novo conceito de saúde pública, que tem uma finalidade maior e um campo de ação a crescer cada vez mais. Agora, vê-se o pensamento médico, que estava confinado às aulas de filosofia, às clínicas e aos laboratórios, fazer sua entrada triunfal nas câmaras legislativas.

(Publicado em A Razão de 07.04.2011)

* UFSM



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