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Verdades históricas

Por:  Nilton Bertoldo*

Quando Sir Walter Raleigh estava preso na Torre de Londres, ocupou o tempo escrevendo uma história universal. Tinha acabado o primeiro volume e trabalhava no segundo quando houve uma rixa entre alguns trabalhadores sob a janela de sua cela, e um dos homens foi morto. Além de inquéritos diligentes, e apesar de ter efetivamente visto a coisa acontecer, Sir Walter nunca conseguiu descobrir o motivo da rixa; altura em que, ou pelo menos é o que se diz – e se a história não é verdadeira, certamente que poderia sê-lo - queimou o que tinha escrito e abandonou o projeto.

Contando com todas as dificuldades da investigação nessa altura, e com a dificuldade especial de investir na prisão, poderia provavelmente ter produzido uma história universal que tivesse alguma semelhança com o curso real dos acontecimentos. Até muito recentemente, os grandes acontecimentos registrados nos livros de História provavelmente aconteceram. Deve ser mesmo verdade que a Batalha de Hastings foi travada em 1066, que Colombo descobriu a América, que Henrique VIII teve seis mulheres, e assim sucessivamente.

Um certo grau de veracidade era possível desde que se admitisse que um fato poderia ser verdadeiro mesmo que não gostássemos dele. Ainda não há muito tempo, na altura da última guerra, a Enciclopédia Britânica podia compilar parcialmente de fontes alemãs os seus artigos acerca de várias campanhas. Alguns dos fatos – o número de vítimas, por exemplo – eram encarados como neutros e fundamentalmente aceitos por toda a gente. Nada disso agora seria possível.

Uma versão nazista e outra não nazista para a Segunda Guerra Mundial não teriam qualquer semelhança entre si, e a questão de saber qual delas acabaria por entrar nos livros de história não seria decidida por métodos indiciários, mas no campo de batalha. Muitas histórias verdadeiras, em muitas circunstâncias, jamais seriam ou poderiam ser escritas, pois não existem, simplesmente, números precisos, relatos objetivos do que estava acontecendo . As pessoas que presenciaram vários fatos e ainda estão vivas, sabem que existe muita patranha. De modo que, em termos práticos, a mentira ter-se-á tornado verdade.

Será que Trotski conspirou com os nazistas? Quantos aviões alemães foram abatidos na Batalha da Grã-Bretanha? A Europa acolhe bem a Nova Ordem? Em nenhum destes casos pode-se obter uma resposta que seja universalmente aceitável por ser verdadeira; em cada caso obtêm-se várias respostas, totalmente incompatíveis, adaptando-se finalmente uma delas em resultado de uma luta física. A história é escrita pelos vencedores.

No Brasil, os fatos se assemelham. A Guerra do Paraguai , por exemplo, tem duas versões: a oficialista e a outra que poucos gostam de ouvir ou falar. A data da Independência é a mesma coisa; 7 de setembro de 1822 ou 2 de julho de 1823? Sem falar no que dizem certos políticos...

(Publicado em A Razão de 31.01.2012)

* UFSM



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