Artigos

As lições olímpicas

Por:  Daniel Arruda Coronel¹ e José Maria Alves da Silva²*

Mais uma vez o Brasil não ficou sequer entre os vinte países com maior número de medalhas angariadas numa olimpíada. Cabe perguntar: será que nossos atletas são inferiores aos de países como Estados Unidos, China, Inglaterra, Rússia e Coreia do Sul?

A resposta é não! O heroísmo demonstrado por alguns atletas brasileiros na conquista de medalhas indica que nossa má colocação no ranking olímpico não se deve a uma inferioridade racial, como podem pensar alguns portadores do Complexo de Vira Latas, mas sim a condições extremamente desfavoráveis, dos pontos de vista organizacional e educacional.

É inegável que, em agudo contraste com a realidade brasileira, os países emergentes, também nas olimpíadas, são os que mais têm investido em educação e cultura, programas de incentivo à formação de atletas, criação de estruturas operacionais adequadas, e outros elementos de planejamento estratégico voltado mais para a formação de capital humano do que para a conquista de medalhas. O orgulho patriótico resultante dessas conquistas acaba sendo um subproduto dos fatores que estão na base do desenvolvimento e da soberania nacional: educação, ciência e tecnologia.

No Brasil, infelizmente, preocupações com a educação e a cultura não passam da retórica. Num tempo não tão distante, os atuais ocupantes do Palácio do Planalto deblateravam em defesa de uma universidade pública gratuita e de qualidade; contudo suas práticas e atitudes atuais contradizem os discursos do passado, como bem o demonstra a intransigência do governo com relação a um movimento grevista nas universidades federais, que tem por objetivo a reestruturação da carreira e a melhoria das condições de trabalho docente.

A Coréia do Sul não chegou por acaso à invejável condição que ostenta hoje, na economia e nos esportes, mas, sim, por força de efetiva mobilização governamental, com ênfase no desenvolvimento da educação, da ciência e da tecnologia. Para chegar a algo semelhante, o Brasil vai ter de contar primeiro com governantes, parlamentares e magistrados comprometidos com o desenvolvimento institucional, que levem a efeito uma reforma política do Estado, para extirpar vícios públicos e privados impeditivos da construção de um projeto nacional progressista, conforme antecipado, há muito tempo, por grandes pensadores brasileiros como Raymundo Faoro. Será que vamos ter isso um dia? Quem viver, verá.

(Publicado no Diário de Santa Maria de 16.08.2012)

* ¹UFSM ²UFV



Compartilhe com sua rede social!

© 2017 SEDUFSM
Rua André Marques, 665 - Centro, Santa Maria, RS - 97010-041
Website por BM2 Tecnologia em Internet