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A aula teórica é herética?

Por:  Nilton Bertoldo*

Um dos métodos de ensino que tem sido criticado, execrado, abominado e até eliminado nos cursos de Medicina no Brasil é a chamada aula teórica, que no nosso entendimento ainda se constitui num excelente instrumento didático-pedagógico na educação médica.

Não se afasta muito da conferência, enquadrada no gênero de composição em prosa, mais especificamente na oratória , que combina os elementos da linguagem escrita com os da enunciação oral.

Além das qualidades próprias do estilo escrito, exigem qualidades externa de voz e gestos. As finalidades principais são as de persuadir, de instruir e de agradar, sendo que a mais importante é a primeira. O meio de que se serve a oratória é a eloquência que, segundo Capmany, “não é outra coisa, senão o dom feliz de imprimir com calor e eficácia no ânimo dos ouvintes os afetos que agitam o nosso”. Enfim, é uma espécie de discurso de cátedra, muito cultivada por professores e eruditos em geral.

O ensino a grandes grupos, através de conferências, foi inaugurado pelos sofistas gregos, cinco séculos antes de Cristo. Um outro meio de ensinar, o tutorado, próprio para pequenos grupos, foi introduzido por Sócrates, na mesma época.

Evidentemente que a conferência também pode ser lida, mas a aula teórica não. Quem lê perde um dos maiores elementos de comunicação humana de que dispõe o conferencista: o olhar. Segundo alguns especialistas em educação médica, é difícil amar, brigar ou educar sem fitar o interlocutor.

Tal como ocorre com o cinema em relação ao teatro, o professor de medicina que lê desloca a ação do presente para o passado e dá aos alunos a impressão de que o tema é assaz complicado. Que podem pensar os discípulos, de levar algum conhecimento de assunto tão difícil que sobre ele, uma autoridade no assunto – o professor – após muito tempo de labuta, não consegue discorrer a não ser lendo?

Na aula teórica, de 50 minutos no máximo, o professor deve demonstrar conhecimento aprofundado do conteúdo.

O uso inadequado de técnicas audiovisuais, frequentemente mais atrapalha do que auxilia. O texto dos quadrículos deve ser apenas um recurso mnemônico, para fixar os conceitos mencionados e para criar a arquitetura mental das principais ideias. Projeção de quadros poluídos, bordado de números, torna-se extremamente maçante. Um número infinito de quadrinhos preenchidos por textos “in totum” e lido pelo professor é um atentado à pedagogia e à didática médica, tornando-se uma heresia em relação à educação desses futuros profissionais.

Será que teremos de exigir carteira de habilitação para os ministrantes de aula teórica nos cursos de Medicina? Por enquanto, o que se observa muitas vezes, são simulacros de erudição, transformando, destarte, a aula teórica numa grande peta!

(Publicado em A Razão de 23.08.2012)

* UFSM



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