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Que mal tem

Por:  Luiz Carlos Nascimento da Rosa*

O ser humano é um ser de suas circunstâncias. Se estivermos atentos ao mundo cotidiano veremos como revelamos quem somos no ato de conviver com os outros. Aliás, o ser outro tem tornado-se, para muitos, um problema na vida contemporânea. Nossas maravilhosas torres de marfim nos bastam. Num debate público, em tempos de movimento de greve, um professor de Filosofia afirma no púlpito: que mal tem de eu querer ficar em meu gabinete e, democraticamente, decidir que não quero fazer greve.

Foi fervoroso, meu colega, na defesa de seu ostracismo democrático. Na minha memória cultural veio à tona o conflito filosófico entre Parmênides de Eléia e Heráclito de Éfiso. Para Parmênides, o vir-a-ser é uma ilusão do mundo sensível. A mutação é ilusória. O ser é constituído de unidade e imobilidade. Já Heráclito afirmava que um homem não pode percorrer duas vezes o mesmo rio e não pode tocar duas vezes uma substância mortal no mesmo estado por causa da impetuosidade e da velocidade da mutação. Para Heráclito tudo flui enquanto resultado dos opostos em luta. Consta ainda, na historiografia, que Heráclito era desapegado ao poder e aos bens materiais.

Que lindo e profícuo este debate que veio em minha mente. Permanência ou fluidez do ser humano em seu ato de viver. Falei para o professor de Filosofia: que mal tem a existência da vila “Bilibiu”, do “Beco do Beijo”, dos moradores das margens do Cadena. Que mal tem se existe o miserável que nem sabe que existe escola e nunca ouviu falar em Filosofia. Que mal tem? Que mal tem a existência dos esfarrapados do mundo que são excluídos pelos interesses do capital se: o Professor de Filosofia tem seu lindo gabinete para divagar.

O professor não declara, como Parmênides, que o vir-a-ser é uma ilusão do mundo sensível, mas é capaz de dizer que o ser não é mais ser de práxis, isto sim, é ser de narrativa e que a realidade é mero simulacro. O professor de Filosofia é a favor daquela máxima pragmática: aquilo que me é útil é verdadeiro. Narcisista é o professor. Meu eu lírico e meu engajamento político fizeram, na assembleia, um poema para o professor: “Que mal tem. Que mal tem meu bem, de perdermos nosso maravilhoso tempo para pensar na vida daqueles que o vintém não tem”. Esta é a circunstância que um filósofo, de gabinete, se revela. Que mal tem?

(Publicado no Diário de Santa Maria de 28 de setembro de 2012)

* UFSM



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