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Cré com cré, lé com lé

Por:  Nilton Bertoldo*

“Cada qual com seu igual” é o que significa o cabeçalho do texto. Aurélio Buarque de Holanda enuncia esse provérbio de outro modo: “Lê com cré, cré com lê”. Lopes registra-o no livro “Origens dos provérbios” afirmando tratar-se de uma reminiscência da Idade Média, quando o cânone era que os clérigos procurassem a companhia dos clérigos e os leigos a dos leigos. Clérigo com clérigo, leigo com leigo originou por simplificação: clé com clé, lé com lé”.

Toma-se como provérbio qualquer expressão de uso corrente numa comunidade, que soe bem e que passe uma receita de comportamento, embora os elementos que a compõem muitas vezes não sejam explicáveis.

Admite-se que, por outro lado, que muitos provérbios foram alterados pelos copistas, habituados a escrever em versos ou desejosos de achar uma forma que pudesse ser facilmente retirada. O mesmo acontece com outras expressões petrificadas: alcunhas, réplicas, parlendas, comparações, adivinhas. Assim os provérbios rimados e/ou ritmados podem ser formas secundárias, isto é, remanescentes ou desenvolvidas de provérbios desprovidos de rima e de ritmo. Porém, isto não muda o seu significado. No caso, devemos andar com gente da nossa igualha.

Jesus Cristo enunciou: “Dize-me com quem andas e te direi quem és”. O vulgo modificou-o para: “Dize-me com quem andas e dir-te-ei que manhas tens”. Contudo, a significação é a mesma.

Temos exemplos disso em todos os corpos sociais. Nas universidades, alunos medíocres prestam homenagens a professores tansos; um corpo discente com elevada qualidade intelectual homenageia docentes de escol; estes discípulos jamais se prestariam a colocar em evidência lentes pacóvios. Na política, então, vale tudo. No afã de ganhar, as alianças vão sendo inescrupulosamente tentadas, mesmo entre velhos inimigos políticos e ideológicos, deixando o eleitorado pasmo diante de tanto descaramento.

O artificialismo eleitoral tornou-se óbvio. O panorama político-eleitoral desta republiqueta é uma vergonha, pois ainda engatinha numa democracia capenga e de araque. O conjunto de políticos se assemelha a um elenco teatral, cujos atores, todos muito amigos e afinados entre si, desempenham o papel que o organizador da peça lhes solicitar. O maior descalabro é que a grande maioria do eleitorado não afina com a conduta da maioria dos políticos, pois a maior parte das promessas das campanhas não são cumpridas.

A realidade histórica sem variação demonstra que, uma vez no poder, seja quem for, tudo aquilo que prometeram é remetido para as calendas gregas e os dirigentes vão fazendo tudo caminhar para o lado que eles bem entenderem. E o eleitorado mais uma vez se decepciona, pois o cardápio político é marcado por um só prato. Também, em certas empresas o provérbio se aplica, tendo em vista que conhecidos canalhas nelas labutam ou delas são sócios.

(Publicado em A Razão de 19 de novembro de 2012)

* UFSM



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