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Presente (de grego) de Natal

Por:  Wilton Trapp*

“A sociedade da acumulação acabou acumulando um passivo de custos sociais e ecológicos, ao invés de riqueza”. ( Albert Tévoédjrè)

A confirmação do investimento de R$ 5 bilhões para a ampliação da fábrica da Celulose Riograndense em Guaíba, é considerado o maior investimento privado da história do RS (Zero Hora de 07/12/2012). De acordo com o Informe Econômico são 40 municípios beneficiados – ampliação das áreas plantadas, obras para melhoria da mobilidade urbana e para facilitar o escoamento da produção e incrementar a arrecadação. Será que já dá para cantar noite feliz?

Então, vamos rememorar alguns fatos: a) o governo Yeda, no início de 2007, desmonta o Zoneamento Ambiental para Silvicultura original da FEPAM, para acabar com as restrições ambientais e liberalizar os plantios de monoculturas de árvores; b) no Seminário “Sustentabilidade da Região da Campanha”, de 2006, dois mitos foram derrubados: o primeiro sobre a escassez de papel no mundo, quando se afirmou que dois terços dele era destinado à propaganda, e o segundo sobre a necessidade da matéria prima eucalipto, mostrou-se que no Brasil há alternativas disponíveis e suficientes para substituí-lo; c) nos municípios onde os eucaliptais foram implantados, os agricultores reclamam das péssimas condições das estradas, do cerco às suas propriedades e da concentração faunística causada pela migração.

Sobre a geração de empregos, dada a conjuntura atual não podemos, a priori, discordar da população de Guaíba. Mas há questões bem mais complexas e que vão além de um localizado aporte de postos de trabalho. Em primeiro lugar esta empresa, cuja matriz no Chile se chama CMPC-Compañia Manufacturera de Papeles e Cartones, foi responsável por uma devastação ambiental sem precedentes, transformando o território dos índios Mapuche em extensos eucaliptais, literalmente expulsando-os de suas terras ancestrais, e jogando-os na marginalidade e na pobreza.

Em segundo lugar a utilização das pradarias mistas do RS, como definia Aziz Ab’Saber, para implantação das lavouras de eucalipto, significa a diminuição das áreas para a produção agropecuária de subsistência e comercial, hoje incrementada com a citricultura, vitivinicultura e olericultura, antiga e novas vocações do Estado. Em terceiro lugar e de acordo com o Banco de Dados da Luta pela Terra/UNESP 2010, quando se compara o agronegócio com a agricultura camponesa, vê-se que o primeiro utiliza 70% do território, leva 90% dos recursos públicos e gera 50% da produção, ao passo que a segunda utiliza 30% do território, leva 10% dos recursos e produz os mesmos 50%. E se compararmos os impactos ambientais e a geração de empregos, a equação é de grandeza similar.

Portanto, nesse momento, o estatuto da precaução deve ser invocado, o desenvolvimento territorial endógeno –como propõe Tévoédjrè- deve ser lembrado, e a ética e o bom senso precisam estar acima das ambições políticas e da perseguição implacável do lucro. Feliz Natal e solidariamente almejemos tirar o planeta azul do vermelho, sem trocadilho com a disputa regional.

(Publicado em A Razão de 02.01.2013)

* UFSM



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