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Seis anos sem Dom Ivo

Por:  Daniel Arruda Coronel*

No dia 5 de março completaram-se seis anos do falecimento do Bispo da Esperança, Dom José Ivo Lorscheiter, o qual, indubitavelmente, foi um dos maiores religiosos que esse país já teve, do mesmo patamar de Dom Paulo Evaristo Arns e dos saudosos Dom Helder Câmara, Dom Luciano Mendes de Almeida e Dom Aloíso Lorscheider, grandes prelados brasileiros que escreveram seu nome em busca da justiça social e dos direitos humanos.

Dom Ivo foi um pastor firme em relação aos dogmas da fé, que devem ser irretocáveis e jamais deixar-se contaminar pelo relativismo, mas foi progressista em questões sociais, políticas e, principalmente, favorável ao ecumenismo cristão, visando cada vez aumentar o diálogo com as demais religiões.

Suas ações e gestos ficaram marcados em ações e projetos sociais, visando diminuir as desigualdades econômicas e sociais. Exemplo disto é o projeto Esperança/Coesperança, o qual tem contribuído para a diminuição das desigualdades sociais na região e, principalmente, a defesa da democracia, da ética e dos direitos humanos, no enfrentamento da ditadura militar e dos generais de plantão que governaram este país de 1964 a 1985.

Quando esteve à frente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNPq), teve uma forte atuação em busca da redemocratização do país. O exemplo mais notório da coragem de Dom Ivo, inclusive relatado por ele próprio, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, em 2002, foi quando Dom Ivo e Dom Vicente Scherer, Cardeal-Arcebispo de Porto Alegre até 1981, foram fazer uma visita ao presidente Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), e o presidente, referindo-se ao Cardeal Scherer, diz o seguinte: "Escuta, me dá licença, já que o senhor trouxe Dom Ivo, secretário da CNBB, eu vou fazer agora uma reclamação. Dom Ivo, eu vou pedir a vocês da CNBB que moderem as críticas ao governo. Por que, se vocês não moderarem, nós vamos ter de mudar de posição. Eu, presidente, vou começar a dar catequese até que vocês mudem de posição e nos deixem fazer a nossa parte".

E o nosso grande bispo Dom Vicente responde: "O senhor me dá licença, já que ele está falando para mim, eu vou dar a minha resposta. Senhor presidente, nós não vamos mudar a nossa posição. Nós não criticamos vocês por aspectos técnicos, mas por aspectos éticos. Vocês fazem coisas moralmente injustas.

Agora, se por isso o senhor começar a dar catequese, nós vamos ficar muito contentes, porque este não é um trabalho só dos bispos, é dos leigos. O senhor tem uma família, tem netos, será uma coisa boa começar a dar catequese. Nós não vamos ficar bravos, vamos até lhe aplaudir”. Ou seja, este exemplo é mais um indicativo dos valores que pautavam a atuação de Dom Ivo.

Não foi somente com o retrógrado sistema político que prevaleceu no Brasil de 1964 a 1985 que Dom Ivo foi firme, mas também com a alta cúpula da Igreja Católica, ao ter uma postura digna, correta e séria com os teólogos da Teologia da Libertação, em especial com o Frei Leonardo Boff e com as Comunidades Eclesiais de Base (CEBS).

Espera-se que, com o alvorecer de um novo papado, mudanças sejam feitas na Cúria Romana, visando que a Igreja cada vez mais vá ao encontro dos mais pobres e necessitados, dando conforto e paz aos que mais precisarem e, com certeza, o legado e as ações do Bispo da Esperança Dom Ivo devem servir de estímulo e inspiração.

(Publicado em A Razão de 02.04.2013)

* UFSM



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